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Utilizando-se de metáforas, o autor constrói texto...

1A democracia já não se reduz a uma esperança, não é

mais uma questão, não é apenas um direito, não é somente o

apanágio de uma cidade ilustrada como Atenas, ou de um

4 grande povo como o romano: é mais, é tudo nas sociedades

modernas. De mera previsão, converteu-se em fato; de opinião

controversa, transformou-se em realidade viva; deixou de ser

7 puro direito para ser direito e força; passou de simples

fenômeno local a lei universal e onipotente.

Enquanto alguns discutem ainda se ela deve ser, já ela

10 é. Como o crescer silencioso, mas incessante, do fluxo do

oceano, sobe e espraia-se calada, mas continuamente. Cada

onda que se aproxima, e recua depois, estende os limites do

13 poderoso elemento. Os espíritos que não veem muito

deixam-se dormir, entretanto, recostados indolentemente à

margem que as águas não tardarão em invadir, porque a

16 enchente cresce linha a linha sem que a percebam, e, como a

onda retrocede sempre, parece-lhes que, retrocedendo, perdeu

todo o terreno vencido. Embora alguma onda mais impetuosa,

19 como que os advertindo, jogue de longe sobre eles a espuma.

Riem dela, porque a veem retrair-se logo após; persuadidos de

que têm subjugado o oceano quando mandam pelos seus

22 serviçais antepor-lhe a cautela de algum quebra-mar que dure

pela vida de uma ou duas gerações. Cuidam ter desse modo

segurado a sua casa e o futuro dos filhos. Mas o frágil

25 anteparo, minado pela ação imperceptível das águas,

esboroa-se um bom dia, malogrando-lhes os cálculos, quando

não mais que isso.

28 A aristocracia teve a sua época e passou. A realeza

teve a sua, e extinguiu-se também. Chegou a vez da

democracia, e esta permanecerá para sempre. Por quê? Porque

31 a aristocracia era a sujeição de todos a poucos, era o privilégio,

a hereditariedade, que, na propriedade individual, é legítima,

por ser consequência do trabalho, mas que, em política, é

34 absurda, porque exclui do governo a vontade dos governados

e submete o merecimento à incapacidade. A realeza também

era o privilégio, ainda mais restrito, mais concentrado,

37 personificado em um indivíduo, circunscrito a uma família.

A democracia, essa é a negação das castas, das exclusões

arbitrárias, e a consagração do direito: por isso, não morre.

Rui Barbosa. Obras completas de Rui Barbosa. Vol. I (1865-1871), tomo I, p. 19-20. Internet: <www.casaruibarbosa.gov.br> (com adaptações).

Julgue os itens de 11 a 16, relativos às ideias e a aspectos linguísticos do texto acima.

Utilizando-se de metáforas, o autor constrói texto argumentativo em que a democracia é retratada como o oceano e suas ondas, e os que nela não creem, representados como os “espíritos que não veem muito” (𝓁.13).


C

Certo


E

Errado