As questões de 01 a 05 se referem ao
texto
a seguir.
Ninguém
mais
Algumas coisas
precisam continuar como
sempre foram,
para não percebermos as mudanças ao
redor
Ruy Castro
1.
Meu amigo, Bernardo, me convidou para seu
casamento
numa igreja tricentenária da cidade. “A
recepção
vai ser na Colombo*”, anunciou. Não tenho
muita paciência para casamentos, próprios e
alheios,
por causa do excesso de seriedade do
oficiante, civil
ou religioso. Mas gosto das recepções depois
da
cerimônia. Com seu profano à vontade, elas
são um
bom augúrio para as duas pessoinhas que
decidiram
encarar o futuro juntos. Para isso, a
Colombo é ideal.
Aos 125 anos, ela passa uma sensação de
eternidade.
É como se Olavo Bilac, seu mais querido
frequentador,
morto em 1918, fosse aparecer de repente, de
bigode encerado, colarinho e pince-nez, e
pedir um
prato de empadinhas.
2. A eternidade
da Colombo é importante.
Algumas
coisas precisam continuar como sempre foram
para
não percebermos que outras à nossa volta
desapareceram.
Exemplo: Bilac cheirava rapé. Mas, há muito,
ninguém mais cheira rapé – cheiram outras
coisas.
Ninguém mais anda pela rua chutando
tampinhas –
nem há mais tampinhas para chutar. Ninguém
mais
anda com as mãos nos bolsos – todo mundo usa
jeans, e os bolsos dos jeans são muito
apertados. E
ninguém mais faz fiu-fiu para uma moça –
pode até
fazer, mas será o último fiu-fiu que ele
fará na vida.
3. Ninguém mais diz coisas
como “Arre!”,
“Com a
breca!” e “Macacos me mordam!” – pode crer,
as
pessoas soltavam essas exclamações. Ninguém
mais
é obrigado pela mãe a estudar acordeão. E
ninguém
mais é registrado com nomes como Ananias,
Viriato,
Heráclito ou Eustórgio – aliás, quase
ninguém mais
se chama Ruy.
4. Bernardo nunca andará de
braços dados com
sua
mulher – andarão de mãos dadas. Seu enxoval
de
casamento não deve ter previsto um carrinho
de chá
para a sala. E ela não tomará cerveja preta
se ficar
grávida.
5. Mas a Colombo é eterna e,
enquanto ela
existir, as
pessoas continuarão se casando.
*Famosa
confeitaria do Rio de Janeiro.
Folha
de S. Paulo. Caderno Opinião, p. A2,
20 mai. 2019. Adaptado.