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Instrução: As questões de números 01 a 15 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao
longo do texto estão citados nas questões.
Nas viagens, a paisagem que mais nos espanta é a nossa
01 Descobri que viajar é trocar de espelho. Em casa, o espelho que nos reflete não mostra
02 nossa mudança. Como todos os objetos da nossa rotina, o espelho da casa é um espelho
03 domesticado. Sabemos o que vamos enxergar. Às vezes até achamos que controlamos este
04 espelho como dominamos as mesas e as cadeiras, a posição do sofá, o canal do controle remoto,
05 o dia de lavar os lençóis da cama. Mesmo quando notamos um quilo a mais ou um par de olhos
06 mais fundos, aquele espelho é nosso e por ser nosso nos ameaça menos. Damos uma passadinha
07 diante dele, às vezes involuntária, e ele nos conforta ao garantir que, sim, estamos lá. Sou eu
08 que olho para mim. E aquela superfície lisa me garante que existo.
09 Quando deixamos nosso mundo e partimos em direção a outros destinos, a primeira
10 paisagem que nos espanta é nossa própria geografia. Ao bater a porta de casa em direção ao
11 novo, a primeira imagem familiar que abandonamos é a de nós mesmos, e o primeiro estrangeiro
12 que nos espanta é o que nos encara do espelho da estação rodoviária ou do aeroporto. Quem é
13 esta pessoa que me olha? Com frequência, somos tentados a fazer a pergunta da poetisa Cecília
14 Meireles: “Em que espelho ficou perdida a minha face?”.
15 Toda viagem contém nossa esperança de sermos mais livres, mais felizes, mais
16 aventureiros, mais relaxados, melhores. Em geral, deixamos um cotidiano que nos confina a uma
17 vida que para muitos é menor e mais apertada do que nos sonhos. Ao botar o pé na estrada,
18 temos a expectativa de embarcar numa outra forma de ser e de viver, em um outro eu que nos
19 parece mais verdadeiro que aquele que acorda todo dia de manhã para seguir um roteiro
20 previsível. Como se longe de casa tivéssemos uma espécie de autorização para finalmente
21 sermos um tal de eu mesmo.
22 Então, vem à tona a primeira surpresa. Aquele rosto que nos estranha no espelho do
23 caminho é nosso. Ele nos perturba mais porque sabemos que é nosso, ainda que diferente pelo
24 ângulo, pelo tamanho e pela luz desconhecida do objeto que nos reflete com outras verdades. E
25 já ali, neste primeiro confronto, vemos algo que não sabíamos sobre nossa face, algo que o
26 espelho domesticado não havia nos mostrado. Começamos ___ compreender ali o pior e o
27 melhor das viagens: o risco. Talvez o que as pessoas que detestam sair de casa ou alterar ___
28 rotina mais temam é justamente o que podem ver de si mesmas num espelho que não é o seu.
29 É só ao sair que descobrimos que não podemos sair. Podemos embarcar apenas em nosso
30 próprio corpo. Às vezes aquelas malas todas, aqueles tantos sapatos e roupas, são apenas uma
31 tentativa inconsciente e desesperada de evitar a descoberta de que somos nossa própria
32 bagagem e viajamos apenas com tudo o que somos. Nem mais nem menos, nosso excesso de
33 peso é nossa nudez. É preciso abrir a porta da rua para compreender que ela só abre para dentro
34 e só leva para dentro.
35 Viajar é uma escolha profunda, que não depende da distância nem do destino. Numa
36 viagem, estamos sempre sozinhos, ainda que no meio de hordas de turistas. As paisagens
37 externas iluminam nossa paisagem interior, para o bem e para o mal. Não visitamos Roma, Nova
38 York ou Paris, as pirâmides do Egito, o deserto do Saara, as savanas africanas, o Rio de Janeiro,
39 a Amazônia ou o outro lado da rua. O que fazemos é revisitar a nós mesmos no contato com
40 diferentes culturas e percepções de mundo. A mudança de paisagem ilumina os cantos escuros
41 dos precepícios e as profundezas dos lagos que nos habitam. Sempre esperamos que exista em
42 nós um belvedere, é essa a nossa expectativa ao viajar. E nem sempre é um belvedere o que
43 encontramos. Por isso, toda viagem é subjetiva e, possivelmente, quando detestamos um lugar
44 ou um povo, é porque não gostamos do que vimos em nós.
45 Toda viagem é sem volta e leva sempre ao mesmo lugar: a nós mesmos. Ao final de cada
46 uma, o melhor que podemos esperar é termos nos tornado mais o que somos.
(Disponível em: http://desacontecimentos.com/?p=326 - texto adaptado especialmente para esta prova.)
Da oração “Podemos embarcar apenas em nosso próprio corpo” (l. 29-30), o conteúdo sublinhado constitui:
Um adjunto adnominal.
Um adjunto adverbial.
Um complemento nominal.
O objeto direto.
O objeto indireto.