Leia o texto para
responder às questões de
números 04 a 11.
‘Me corrige’, pede o
pronome
Uma das principais marcas do
português
brasileiro
permanece alijada da escrita
Me parece cada vez mais claro que o
pronome átono em
início de frase, como o que acabo de
cometer, será o último
dos últimos tabus normativos a ser
quebrado pelo inexorável
abrasileiramento da língua que se entende
e se pratica como
nossa norma culta.
É claro que me refiro
à língua escrita.
Sabe-se que,
falando, a maior parte dos brasileiros
iniciaria assim esta
frase: “Se sabe que...”. Isso inclui
pessoas de alta escolaridade
e não exclui situações em que a
comunicação prevê
certa cerimônia.
No livro “Oficina de
Texto”, um guia de
redação sensatamente
equilibrado entre tradição e modernidade,
o linguista
Carlos Alberto Faraco e o romancista
Cristovão Tezza,
colunista da Folha, escrevem o
seguinte:
“Resta praticamente
uma única regra universal na colocação de
pronomes da
língua-padrão escrita: jamais comece uma
sentença com
pronome átono”.
Logo em seguida
reconhecem que talvez esse
não seja
bem o único mandamento restante. Para
poupar dor de cabeça
com revisores e corretores de provas,
dizem, vale a pena
seguir também a regra “bastante duvidosa”
das tais palavras
atrativas, como “que”, “quando” e “não”,
que sempre puxariam
o pronome átono para junto de si.
No
mais, Faraco e Tezza dão ao leitor a
bússola de colocação
pronominal que julgo definitiva: “Prefira
a forma que soar
melhor”. Se você é brasileiro, isso exclui
quase certamente a
mesóclise, além de limitar a lusitana
ênclise. Nossa inclinação
é naturalmente proclítica.
O
gramático Manuel Said Ali (1861-1953)
foi um pioneiro
defensor da colocação de pronomes à moda
da casa, contra
o lusocentrismo dominante em sua época e
ainda hoje presente
na gramática normativa.
Argumentava que
“a pronúncia brasileira
diversifica da
lusitana; daí resulta que a colocação
pronominal em nosso
falar espontâneo não coincide
perfeitamente com a do falar
dos portugueses”.
Tudo isso é lindo, mas
convém ter sempre
em mente o
último tabu. Me faça o favor de contrariar
sua fala e escrever
“Faça-me o favor”, a menos que queira
marcar uma posição.
Se prepare, nesse caso, para as
consequências.
(Sérgio
Rodrigues, “‘Me corrige’, pede o
pronome”.
Em: Folha de S.Paulo, 02.08.2018.
Adaptado)