Leia o texto, para
responder às questões
de números 05
a 09.
Entre os
números que contam a grandeza do
Município
de Cachoeiro do Itapemirim, há este, capaz
de espantar o
leitor distraído: 25 379 pios de aves,
anualmente. Não, a Prefeitura
não espalhou pela cidade e distritos
equipes de ouvidores
municipais, encarregados de tomar nota
cada vez que
uma avezinha pia. Trata-se de pios feitos
para caçadores de
pássaros. E quem os faz é uma família de
caçadores de ouvido
fino – os Coelho, cujas três gerações
moram na mesma e
linda ilha, onde o rio se precipita
naquele encachoeirado, ou
cachoeiro, que deu o nome à cidade.
Trata-se de um artesanato sutil; não
lhe
basta a
perícia técnica de delicados torneiros que
faz desses
pios bem acabados pequenas obras de arte;
exige uma
sensibilidade que há de estar sempre
aguçada. Direis que
é uma arte assassina; e, na verdade,
incontáveis milhares
de bichos do Brasil e da América do Sul já
morreram por acreditar,
em algum momento de fome ou de amor,
naqueles pios
imaginados entre os murmúrios do rio
Itapemirim.
Dizem que os Coelho fazem
até, em segredo,
pios para
caçar mulher. Famosa caçada é essa, em que
não raro é o
caçador a presa da caça. Não sei. Ainda
que eu seja Coelho
pela parte de mãe, devo ser de outro ramo,
visto que nunca
me deram um pio desses. Nem quero.
(Rubem Braga, “Quinca Cigano”.
Elenco de cronistas brasileiros
modernos.
Adaptado)