Leia o seguinte fragmento
retirado do
capítulo 22 - Na terra dos lápis -, do livro
Marley e eu, para
responder às 7 primeiras questões.
Esperávamos que nosso primeiro Natal
na
Pensilvânia fosse branco. Jenny e eu tivemos
de usar uma
série de argumentos para convencer Patrick e
Connor de que estariam deixando sua casa e
seus amigos na
Flórida em troca de algo melhor, e o mais
persuasivo de todos fora a promessa de que
teriam neve. E não era
qualquer tipo de neve, mas uma grande
quantidade, fofinha, como em um cartão-
postal, que caía do céu em
flocos grandes e silenciosos, formando
montanhas, com a consistência perfeita para
se fazer bonecos de neve. E
a neve do Natal, bem, essa era a melhor de
todas, o Santo Graal da vida no inverno do
norte. (...)
Na manhã de Natal havia
um tobogã novinho em
folha debaixo da árvore e equipamentos de
neve
suficientes para uma excursão até a
Antártica, mas a vista que tínhamos da janela
ainda era de galhos sem folhas,
gramados dormentes e campos de milho
amarronzados. Acendi a lareira, deixando o
ambiente agradavelmente
aquecido, e disse às crianças que fossem
pacientes. A neve viria quando tivesse de
vir.
Chegou o Ano-Novo, e ela ainda não
tinha
caído. (...)
Três semanas depois do início
do ano, a neve
finalmente veio me salvar do meu purgatório
de culpa.
Chegou à noite, depois que todos haviam ido
dormir, e Patrick foi o primeiro a soar o
alarme, correndo para nosso
quarto ao amanhecer e abrindo totalmente as
cortinas.
- Olhem! Olhem! - exclamou ele.
- Ela veio!
Jenny e eu nos sentamos na cama
para admirar
nossa absolvição. Uma cobertura branca se
espalhava
pelas colinas, pelos campos de milho, pelos
pinheiros e pelos telhados, estendendo-se até
o horizonte.
- É claro que veio -
respondi, sem querer
dar muita importância. - O que eu disse a
vocês?
A neve tinha quase um metro de
altura e
continuava caindo. Connor e Colleen não
demoraram a
aparecer, o dedão enfiado na boca, arrastando
seus cobertores pelo corredor. Marley acordou
e se espreguiçou,
batendo o rabo em tudo, sentindo a excitação.
Eu me virei para Jenny e disse:
- Acho
que pensar em voltar a dormir, nem
pensar.
E quando Jenny assentiu com a cabeça,
me
virei para as crianças e gritei:
- Está
certo, coelhinhos da neve, vamos nos
vestir.
Pela meia hora seguinte, colocamos
roupas,
fechamos zíperes, calçamos botas, enfiamos
gorros
e luvas. Quando terminamos, as crianças
pareciam múmias, e nossa cozinha, uma réplica
dos bastidores das
Olimpíadas de Inverno. E concorrendo na prova
Bobo no Gelo Morro Abaixo, na categoria de
Cães de Grande
Porte, estava... Marley, o Cão. Eu abri a
porta da frente e, antes que qualquer um
saísse, Marley passou zunindo
por nós, derrubando a encapotada Colleen.
Quando suas patas tocaram aquela coisa branca
e toda estranha - “Ih,
molhado! Ih, frio!” -, ele mudou de ideia e
tentou subitamente mudar de direção. Quem já
dirigiu um carro na neve
sabe que frear repentinamente e fazer uma
conversão em “U” nunca é uma boa ideia.
Marley derrapou, girando de trás para a
frente. Ele caiu ligeiramente de um lado,
antes de se
levantar novamente a tempo de dar uma
cambalhota nos degraus da varanda da frente e
bater de cabeça na
neve. Quando se equilibrou um minuto depois,
parecia um biscoito gigante polvilhado de
açúcar. Com exceção do
nariz preto e dos olhos castanhos, ele estava
totalmente coberto de branco. O Abominável
Cachorro das Neves.
Marley não sabia o que fazer com aquela
substância estranha. Enfiou o nariz e soltou
um espirro violento. Enfiou a
cabeça e esfregou a cara. Então, como por um
encanto, como se tivesse recebido uma dose
gigante de
adrenalina, ele disparou pelo quintal
executando uma série de saltos mortais
entremeados de cambalhotas ou
mergulhos de cabeça. A neve era quase tão
divertida quanto bagunçar o lixo do
vizinho.
Acompanhando-se o rastro de
Marley pela neve
conseguia-se começar a entender como
funcionava sua mente tortuosa. Seu rastro
tinha inúmeras viradas, voltas e desvios
repentinos, com giros erráticos
em forma de oito, fazendo espirais e saltos
triplos, como se estivesse seguindo algum
algoritmo bizarro que só ele
conseguiria entender. Logo as crianças
começaram a imitá-lo, girando, rolando e
brincando, amontoando neve em
todas as dobras e fendas de suas roupas.
Jenny nos trouxe torradas amanteigadas,
canecas de chocolate quente
e um aviso: a escola tinha cancelado as
aulas. Eu sabia que tão cedo não conseguiria
tirar da garagem meu
Nissan com tração nas duas rodas, sem
mencionar as subidas e descidas das estradas
cobertas de neve nas
montanhas, e declarei oficialmente um dia de
neve pra mim também.
GROGAN,
John. Tradução: Thereza C. R. da
Motta e Elvira Serapicos. Marley e eu: A vida
e o amor ao
lado do pior cão do mundo. Ediouro.
2006.pp274-278.