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Terapias milagrosas com pílulas ou cirurgias, mesmo que...

Texto para as questões 1 a 14.


Quando o cérebro começa a falhar


O cérebro humano é fascinante. Ele nos permite pensar, imaginar, agir, falar, coordenar nossos movimentos,

armazenar informações e muito mais. Assim, doenças que atinjam o cérebro podem limitar consideravelmente a capacidade

de manifestarmos a nossa forma humana.

As chamadas doenças neurodegenerativas constituem um grupo de enfermidades que, em sua maioria, surgem com

5 o envelhecimento. Geralmente, são associadas à demência, cujo exemplo mais comum é a doença de Alzheimer. Com o

aumento da expectativa de vida das pessoas, é natural e necessário que a ciência se preocupe em entender como essas

doenças se desenvolvem e identificar potenciais formas de tratá-las.

Você certamente conhece alguém ou alguma história de uma pessoa acometida por uma doença neurodegenerativa.

Deve ter conhecimento também sobre o sofrimento causado aos pacientes e seus familiares. Existem dezenas dessas

10 doenças, que têm em comum uma progressiva degeneração das funções cerebrais, que invariavelmente levam a inabilidades

físicas, demência e, na maioria dos casos, à morte.

Mais de 40 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem com a doença de Alzheimer (DA), a principal forma de

demência conhecida. Esse número tende a crescer à medida que a longevidade da população mundial aumenta e que hábitos

de vida nada saudáveis são adotados. Apesar disso, a DA ainda não dispõe de nenhuma forma de diagnóstico precoce — o

15 que prejudica o início do acompanhamento médico e de possíveis intervenções experimentais — e, infelizmente, ainda não

tem cura. Isso não quer dizer, no entanto, que a ciência nesse campo esteja parada. Muito se descobriu nas últimas três

décadas.

Uma pergunta frequente que muitos se fazem ao envelhecer é se estariam desenvolvendo DA e ainda não sabem.

Por isso, vários grupos de pesquisa têm buscado sinais capazes de prever o Alzheimer muito antes que a doença se

20 estabeleça. Mas não há motivo de preocupação se você é jovem ainda: o aparecimento da DA só é comum a partir dos 65

anos, e o esquecimento ocasional de algo pode ser apenas circunstancial. Porém, se os problemas de memória afetam a sua

qualidade de vida, aí sim é o momento de se consultar com um neurologista.

As causas específicas da DA ainda não são totalmente estabelecidas. Uma explicação bem aceita para o

desenvolvimento da DA consiste no acúmulo substancial do peptídeo beta-amiloide (Aβ) no cérebro de pacientes, o que

25 prejudica o funcionamento dos neurônios e de outras células cerebrais, danificando a memória. A ação do Aβ também pode

gerar outros eventos tóxicos para o cérebro que levam a outros sintomas da doença, como ansiedade, depressão e apatia.

Além disso, a progressão do Alzheimer leva a novos sintomas, como distúrbios de sono, agitação e dificuldades motoras.

Como não existe detecção da DA antes do surgimento dos sintomas, os níveis aumentados de Aβ só haviam sido

observados em pacientes que já apresentavam perda de memória. Avanços importantes têm sido alcançados recentemente

30 com o desenvolvimento de técnicas que permitem detectar pequenas variações nos níveis de Aβ no líquor (fluido que banha

nosso cérebro e nossa medula espinhal) e no sangue em pacientes com risco de desenvolver a doença. Esses testes ainda

não estão disponíveis em hospitais, mas a perspectiva é que eles estejam acessíveis dentro de uma década.

Essas observações também indicam que marcadores cerebrais e bioquímicos da DA poderiam ser identificados

décadas antes do aparecimento dos sintomas clínicos. Isso gera a perspectiva de que potenciais intervenções profiláticas e/ou

35 terapêuticas possam ser empregadas em pacientes que apresentam indicativos bioquímicos ou moleculares de DA antes do

estabelecimento clínico da doença. A identificação sistemática desses marcadores poderá contribuir não apenas para o

entendimento da progressão, mas também para o desenvolvimento de terapias eficientes no futuro.

A DA é uma doença progressiva que afeta primariamente algumas regiões do cérebro, como o hipocampo. O

hipocampo é fortemente associado à formação e manutenção de memórias no cérebro, e seu funcionamento alterado parece,

40 portanto, levar à perda de memórias em pacientes com Alzheimer. No entanto, há um rápido acometimento de outras regiões

do cérebro, incluindo os córtices pré-frontal e temporal, o que ajuda a explicar os sintomas clínicos da doença.

(...)

Muitos testes clínicos têm sido feitos em pacientes de diferentes condições neurodegenerativas. Esses estudos têm

se concentrado em duas estratégias: o desenvolvimento de novas drogas com alvos específicos e o emprego de

45 medicamentos já aprovados para tratar outras doenças. Infelizmente, muitos dos fármacos testados em pacientes têm

apresentado resultados negativos, mas há boas razões para se animar e ter esperança.

No caso da DA, muito esforço tem sido feito em desenvolver anticorpos que bloqueiem a ação do peptídeo Aβ. O

insucesso clínico dessa abordagem possivelmente se deve ao fato de que o tratamento comece tarde demais, apenas quando

o quadro de mau funcionamento cerebral já está estabelecido e os pacientes já apresentam sintomas clínicos.

50 Contudo, vários resultados também sugerem que estamos progredindo em entender e tratar melhor as doenças

neurodegenerativas. Por exemplo, um novo composto se mostrou eficaz em reduzir os níveis de um marcador da doença de

Huntington. No caso de pacientes com Parkinson, terapias ainda em avaliação sugerem que a estimulação elétrica controlada

de algumas regiões do cérebro dos pacientes pode diminuir os sintomas de tremores e de falta de coordenação motora.

Ainda não dispomos de uma medicação que interrompa ou reverta o quadro neurodegenerativo de pacientes com DA

55 ou outras formas de demência. Isso certamente causa uma aflição nos familiares dos pacientes ao verem aquele quadro

evoluir sem que muito possa ser feito. No entanto, é bastante importante que a qualidade de vida dos pacientes seja

preservada na medida do possível.

Uma informação interessante é que a musicoterapia – exposição controlada e estímulo dos pacientes a músicas que

lhe são prazerosas – tem claros efeitos positivos em sintomas de agitação, confusão mental e bem-estar geral. A música ativa

60 circuitos cerebrais bastante complexos relacionados às emoções e pode, de fato, fazer bem.

Por fim, há de se ressaltar o cuidado que se deve ter com falsas promessas de reversão ou cura da DA ou de outras

condições neurodegenerativas. Terapias milagrosas com pílulas ou cirurgias, mesmo que aplicadas por médicos, ainda não

têm validade clínica e não há comprovação científica alguma de que funcionam. A comprovação científica é realmente

necessária para mostrar que os medicamentos têm a ação esperada e que não prejudicam mais ainda o já debilitado paciente.

65 Ainda há muitos mares a serem navegados na compreensão das doenças neurodegenerativas, mas o público em

geral pode nos ajudar dando seu suporte e apoiando, sempre que possível, iniciativas de pesquisa nessa área.

(Mychael V. Lourenço. Instituto de Bioquímica Médica, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Matéria publicada em 10/6/19. Disponível em: cienciahoje.org.br)

Terapias milagrosas com pílulas ou cirurgias, mesmo que aplicadas por médicos, ainda não têm validade clínica e não há comprovação científica alguma de que funcionam.(linhas 62 e 63)

Assinale a alternativa que NÃO poderia, no trecho acima, substituir o termo mesmo que sob pena de alteração gramatical e semântica.


A

porquanto


B

embora


C

conquanto


D

não obstante


E

posto que