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O vocábulo afim ao campo semântico da palavra “espanto”...

A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.


Texto 1

Capítulo IV

UMA TEORIA NOVA


1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão

Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as

bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco

para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e

5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.

Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado

em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.

– Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.

Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da

10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto

insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram

separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe

ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?

Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;

15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o

lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,

quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o

recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.

Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada

20 de circunspeção até o pescoço.

– Estou muito contente, disse ele.

– Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.

O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:

– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,

25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.

Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma

experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora

uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.

Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou

30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de

cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os

exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o

perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com

especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um

35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e

pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o

boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma

coisa, e até acrescentou sentenciosamente:

– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.

40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.

Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas

a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um

nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.

Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as

45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de

divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e

da matriz; – ou por meio de matraca.

Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais

dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.

50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe

incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo

eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha

inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação

que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à

55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e

aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a

matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto

cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à

absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime

60 mereciam o desprezo do nosso século.

– Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à

insinuação do boticário.

E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que

era melhor começar pela execução.

65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.

Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:

– Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso

extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da

razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,

70 insânia e só insânia.

O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não

chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo

colossal que não merecia princípio de execução.

– Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão

75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que

transpor a cerca?

Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,

em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias

entranhas.

80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a

teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma

revolução.


ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1939> . Acesso em: 12/08/2019.




O soneto XIII de Via-Láctea, coleção publicada em 1888 no livro Poesias, é o texto mais famoso da antologia, obra de estreia do poeta Olavo Bilac. O texto, cuidadosamente ritmado, suas rimas e a escolha da forma fixa revelam rigor formal e estilístico caros ao movimento parnasiano; o tema do poema, no entanto, entra em colisão com o tema da literatura típica do movimento, tal como concebido no continente europeu.


Texto 2

XII



1 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…


5 E conversamos toda a noite, enquanto

A Via-láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.


Direis agora: "Tresloucado amigo!

10 Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?"


E eu vos direi: "Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas.”


BILAC, Olavo. Antologia: Poesias. Martin Claret, 2002. p. 37-55. Via-Láctea. Disponível em:

<http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000289.pdf>. Acesso em: 19/08/2019.


O vocábulo afim ao campo semântico da palavra “espanto”, empregada em “E abro as janelas, pálido de espanto…” (Texto 2, verso 4), é


A

desequilíbrio.


B

tristeza.


C

euforia.


D

admiração.


E

distração.