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No trecho “De onde você vem? Como chegou aqui? O que estava...

TEXTO 6


O RETORNO DO JOVEM PRÍNCIPE


01 Eu estava dirigindo por uma erma estrada da Patagônia (terra que recebeu seu nome de uma

02 tribo nativa que, supostamente, tinha pés muito grandes, ou “patas”), quando de repente avistei ao

03 lado da estrada um embrulho de aparência estranha. Instintivamente reduzi a marcha e, para meu

04 grande espanto, vi uma mecha de cabelos louros se projetando de um cobertor azul, que parecia

05 envolver uma forma humana. Parei o carro e, ao descer, fui tomado de surpresa. Naquele local, a

06 centenas de quilômetros do vilarejo mais próximo, em meio a uma área desolada onde não se via

07 nenhuma casa, nenhuma cerca, nem mesmo uma árvore, um jovem dormia placidamente, sem

08 qualquer preocupação que maculasse seu rosto singelo.

09 O que eu confundira com um cobertor era na verdade uma longa capa azul, com dragonas e

10 forro arroxeado, sob a qual se entreviam calças brancas, semelhantes a calças de montaria, enfiadas

11 num par de reluzentes botas de couro negro.

12 A vestimenta principesca era incongruente naquelas latitudes. Um cachecol amarelo-pálido

13 tremulava descuidadamente na brisa primaveril e se enroscava às vezes nos cabelos do jovem,

14 dando-lhe um ar melancólico e sonhador.

15 [...]

16 Era óbvio que eu não poderia deixar que ele permanecesse naquele lugar solitário, dormindo

17 indefeso, sem água nem comida. [...] Com dificuldade, tomei-o nos braços e o deitei no banco do

18 carona.

19 Fiquei surpreso com o fato de ele não acordar; cheguei a recear que estivesse morto. Um

20 pulso fraco, mas firme, assegurou-me de que não era o caso. Quando pousei sua mão flácida no

21 assento, pensei que, se já não tivesse visto tantas imagens de anjos, eu acharia que estava na

22 presença de um deles, recém-chegado à Terra. Mais tarde, soube que o garoto estava exausto, no

23 final de suas forças.

24 [...]

25 - Estou com sede  disse o jovem de repente, assustando-me, pois eu já quase esquecera que

26 não estava só.

27 Embora sua voz fosse baixa, era clara e transparente como a água que pedira.

28 Em viagens longas como aquela, que levaria três dias, eu sempre levava refrigerantes e

29 sanduíches, de modo que só tivesse que parar para pôr gasolina. Dei-lhe então uma garrafa de

30 refrigerante, um copo plástico e um sanduíche de carne com tomate, embrulhado em papel-

31 alumínio. Também bebi e comi, sem dizer nada. Mas perguntas surgiam em minha cabeça. De onde

32 você vem? Como chegou aqui? O que estava fazendo, deitado à beira da estrada? Você tem família?

33 Onde está ela? E assim por diante. Por causa de minha natureza ansiosa, cheia de curiosidade e

34 desejo de ajudar, ainda hoje me congratulo por ter conseguido permanecer em silêncio durante

35 aqueles dez intermináveis minutos, enquanto esperava que o jovem recobrasse as forças. Ele, por

36 sua vez, bebeu e comeu como se fosse a coisa mais natural do mundo alguém aparecer no meio de

37 um quase deserto para lhe dar uma bebida e um sanduíche de carne.

38 - Obrigado  disse, após terminar.

39 Recostou-se então no vidro da janela, como se aquela única palavra fosse o bastante para

40 esclarecer minhas dúvidas.

41 [...]


ROEMMERS, A. G. O retorno do jovem príncipe. Trad. Afonso Paulo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, p. 10-11.

No trecho “De onde você vem? Como chegou aqui? O que estava fazendo, deitado à beira da estrada? Você tem família? Onde está ela?” (linhas 31-33), o uso dos pontos de interrogação indica


A

questões dirigidas ao jovem desconhecido.


B

suspensão do pensamento do narrador.


C

dúvidas do jovem acerca do motorista.


D

perguntas do narrador feitas a si próprio.


E

receio do narrador diante do jovem.