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O texto a seguir serve de referência para as questões 06 a 10.
01 Era um menino triste. Gostava de saltar com os meus primos e fazer tudo o que eles faziam.
Metia-me com os moleques por toda parte. Mas, no fundo, era um menino triste. Às vezes
dava para pensar comigo mesmo, e solitário andava por debaixo das árvores da horta,
ouvindo sozinho a cantoria dos pássaros.
05 O meu esporte favorito concorria para estes isolamentos de melancólico. Eu andava pegando
pássaros no alçapão. E, escondido, passava horas inteiras na expectativa do sucesso. Via o
canário chegar, pousar em cima da gaiola, trocar suas carícias com o prisioneiro, lastimar
a sorte daquele pobre amigo, e depois subir para o alçapão armado, fitar o milho dentro da
armadilha, demorar um bocado, na indecisão de quem vai dar um grande passo na vida, e
10 cair na cadeia. Mas isto demorava horas a fio. Muitos chegavam, examinavam tudo, punham
o bico quase que dentro do alçapão, e iam-se embora, bem senhores do que se preparava
para eles. Enquanto os canários vinham e voltavam, eu me metia comigo mesmo, nos meus
íntimos solilóquios de caçador. Pensava em tanta coisa... E um rastejar de calango nas folhas
secas fazia um ruído de coisa grande bulindo.
15 Pensava então naquilo que junto de gente eu não podia pensar. Já estava no engenho há mais
de quatro anos. Mudara muito desde que viera de Recife.
— Para o ano — diziam — iria para o colégio.
E o que seria esse colégio? Os meus primos contavam tanta coisa de lá, de um diretor
medonho, de bancas, de castigos, de recreios, de exercícios militares, que me deixavam
20 mesmo com vontade de ir com eles. Mas o engenho tinha tudo para mim. [...]
Tinha um medo doentio da morte. Aquilo da gente apodrecer debaixo da terra, ser comido
pelos tapurus, me parecia incompreensível. Todo mundo tinha que morrer. As negras diziam
que alguns ficavam para semente. Eu me desejava entre estes felizardos. Por que não podia
ficar para semente? Dentro de um navio, enquanto o mundo todo se acabasse. E nesse barco
25 eu me via cercado de tudo que era bicho, e a minha tia Maria, a negra Generosa, a vovó
Galdina, o meu avô, tudo que me amava estaria comigo. Esta horrível preocupação da morte
tomava conta da minha imaginação. [...]
Não ia para o almoço, entretido com a gaiola da chama. Procuravam-me por toda parte.
Minha tia Maria ameaçava de soltar tudo quanto era passarinho.
30 — Nem come mais, só pensando em canários...
Absorvia-me inteiramente com o esporte cruel. Deixava os moleques e os primos para um
canto. Mas os meus canários não cantavam. Via-os soltos, com trinados de estalos, dando
os seus concertos nos galhos das árvores. Nas gaiolas, irremediavelmente mudos. Faziam
greve contra mim. Tratava deles com cuidados maternos. Limpava-lhes as gaiolas, pisava-lhes
35 milho — e nada, calados de vez. Dependurava-os então pelos pés de pau, para ver se os
enganava com esse contato com os palcos dos seus dias de festa. E mudos sempre. Os meus
pássaros só trabalhavam ao bom preço da liberdade.
As negras me ameaçaram:
— Judiar com passarinho bota as pessoas pro inferno, menino. Deus Nosso Senhor fez os
40 pássaros foi pra cantar no mato, soltinhos.
Porém os grandes dias de glória da minha infância me dera o meu alçapão, escancarado aos
ingênuos canários do Santa Rosa.
Fonte: REGO, José Lins do. Menino de engenho. 80. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2001, p. 80-83 (adaptado).
Dentre os excertos seguintes, assinale aquele em que o vocábulo negritado e sublinhado foi utilizado em sentido conotativo:
“Mas o engenho tinha tudo para mim.” (linha 20).
“E nesse barco eu me via cercado de tudo que era bicho.” (linhas 24-25).
“Porém os grandes dias de glória da minha infância me dera o meu alçapão [...]” (linha 41)
“[...] para ver se os enganava com esse contato com os palcos dos seus dias de festa.” (linhas 35-36).
“Via o canário chegar, pousar em cima da gaiola, trocar suas carícias com o prisioneiro [...]” (linhas 6-7).