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Considere as seguintes análises de Antonio Candido, em...

Um mito


Por Sirio Possenti


O mito mais renitente sobre as línguas é o de que teria havido, em algum momento, línguas perfeitas. Em cada país – ou cultura – há quem lamente sua decadência. As pessoas estariam falando muito mal, ninguém mais respeita as regras, a gramática precisa “voltar” a ser ensinada, quem sabe até mesmo o latim, já que isso ajudaria a melhorar as coisas, da grafia ao sentido, passando pelas regências e concordâncias. As queixas são generalizadas.

A primeira versão desse mito que conhecemos é a história de Babel, embora no livro não se diga que se falava corretamente, mas apenas que se falava uma só língua e todos se compreendiam. O castigo foi a diversidade linguística. Antes disso, o livro informara que Adão deu a cada criatura um nome adequado. Não se fala em sintaxe, concordância, regência, muito menos em correção, mas apenas na adequação dos nomes, que, diga-se, é hoje um tópico de muitas queixas.

Na verdade, o mito da decadência (o avesso do da perfeição antiga) vigora em muitos outros campos: os escritores eram melhores, havia verdadeiros filósofos, os políticos tinham mais compostura (e eram melhores oradores), o casamento era para valer, as mulheres, então... etc.

O dado mais curioso sobre a questão é que as queixas são bem antigas. Cícero já se queixava da mesma coisa, e conhece-se o Appendix Probi, que fazia uma lista de palavras corretas e de sua contraparte “errada” (por exemplo, condenava oricla, de que derivou orelha, defendendo auris; condenava rivus, contra rius, de onde obviamente veio rio; condenava socra (sogra) em vez de socrus; defendia ansa contra a forma nova asa etc.). Ou seja, já naquele tempo se faziam listas de erros, que hoje é um esporte bem lucrativo.

O curioso é que, a cada época, os defensores do seu padrão não se dão conta de que ele foi condenado anteriormente (quem deixaria de dizer rio, asa ou sogra?). Há queixas gerais, pura repetição de clichês, e queixas específicas, que tematizam questões particulares. As queixas começam pela grafia, sem que os críticos se deem conta de que uma lei pode mudá-la. A “invenção” de palavras consideradas desnecessárias ou o emprego das atuais em sentido “corrompido” também é um alvo muito comum.


Disponível em: <http://www.cienciahoje.org.br/noticia/v/ler/id/3113/n/um_mito> Acesso em: 04 out. 2016


Considere as seguintes análises de Antonio Candido, em “Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos” (2000) sobre poetas da literatura brasileira:


I. Nele, o lirismo é pura expressão da sensibilidade, desligada de qualquer pretensão mais afoita. Saudade, ternura, natureza e desejo são modulados numa frauta singela. Extremamente romântico na fuga à abstração, à generalização, sempre transpõe no poema um sentimento imediato, banhando-se naquela magia desde então ligada ao seu nome. O senso dramático da vida reponta, logo atenuado pela vocação elegíaca e o arrepio sensual. A tristeza, nele, não impede o encantamento da carne; aumenta-o, pelo contrário, como acontece nos temperamentos voluptuosos. Por isso, contribui decisivamente, com seu grande talento poético, para fixar um de seus aspectos românticos: a excitação dos sentidos, bastante viva para despertar e envolver a imaginação e, todavia, mascarada por jogo hábil de negaceios: ora a tristeza da posse inatingível, ora a ironia da possa disfarçada, ora o falso pudor da posse protelada. E, dominando tudo, a capacidade quase virtuosística de elaborar imagens delicadas, a fim de atenuar as consequências finais da corte amorosa. Depois dele - na obra de Castro Alves – a paixão aparecerá mais próxima à natureza, e o drama do espírito não mais sufocará a fruição das coisas.


II. Se as imagens recorrentes valem alguma coisa para entender os poetas, a presença da rocha aponta nele para um anseio profundo de encontrar o alicerce, ponto básico de referência. Quando quer localizar um personagem, é perto ou sobre uma rocha que o situa. Na pedra, quase tanto quanto nos troncos, grava os seus lamentos. Para imagem da dor ou sofrimento, não quer outro símile. Todavia, é como antítese que mais aparecem, servindo para contrastar a ternura do sentimento. Nas Obras a um ciclo de oposição sentimento-rocha, brandura-dureza, em que vem se exprimir, segundo a convenção lírica, a sua sensibilidade profunda.


III. Em nossa literatura é dos maiores poetas, dentro os sete ou oito que trouxeram alguma coisa à nossa visão de mundo. Com ele a pesquisa neoclássica da natureza alcança a expressão mais humana e artisticamente mais pura. A recuperação da naturalidade, cujos artífices foram os primeiros árcades, encontra nele a nota fundamental humana. Ao contrário da tradição impessoal do Cultismo e da delegação poética arcádica, vemos uma personalidade que se revela, mas, ao mesmo tempo, constrói-se no plano literário, que considera a si mesmo como objeto legítimo da arte, e por isso se desvenda, nas suas penas, no seu gosto, em toda a escavação profunda e sinuosa da confidência; mas só desvenda para atingir a imagem eloquente, a frase bela que permite elaborar uma expressão artística, ou seja, uma estilização de si mesma.


Assinale a alternativa CORRETA que indica, respectivamente, os poetas de que tratam as análises I, II e III.


A

Análise I- Álvares de Azevedo; Análise II- Silva Alvarenga; Análise III- Cláudio Manuel da Costa.


B

Análise I- Casimiro de Abreu; Análise II- Tomás Antônio Gonzaga; Análise III- Álvares de Azevedo.


C

Análise I- Casimiro de Abreu; Análise II- Cláudio Manuel da Costa; Análise III- Tomás Antônio Gonzaga.


D

Análise I- Álvares de Azevedo; Análise II- Cláudio Manuel da Costa; Análise III- Tomás Antônio Gonzaga.


E

Análise I- Junqueira Freire; Análise II- Tomás Antônio Gonzaga; Análise III- Cláudio Manuel da Costa.