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O texto 1 se inicia em um processo descritivo e passa para...

Texto 1


BECOS DE GOIÁS



1 Beco da minha terra...

Amo tua paisagem triste, ausente e suja.

Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa.

Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio.

5 E a réstia de sol que ao meio-dia desce, fugidia,

e semeia polmes dourados no teu lixo pobre,

calçando de ouro a sandália velha,

jogada no teu monturo.


Amo a prantina silenciosa do teu fio de água,

10 descendo de quintais escusos

sem pressa,

e se sumindo depressa na brecha de um velho cano.

Amo a avenca delicada que renasce

na frincha de teus muros empenados,

15 e a plantinha desvalida, de caule mole

que se defende, viceja e floresce

no agasalho de tua sombra úmida e calada.


Amo esses burros-de-lenha

que passam pelos becos antigos. Burrinhos dos morros,

20 secos, lanzudos, malzelados, cansados, pisados.

Arrochados na sua carga, sabidos, procurando a sombra,

no range-range das cangalhas.


E aquele menino, lenheiro ele, salvo seja.

Sem infância, sem idade.

25 Franzino, maltrapilho,

pequeno para ser homem,

forte para ser criança.

Ser indefeso, indefinido, que só se vê na minha cidade.


Amo e canto com ternura

30 todo o errado da minha terra.

Becos da minha terra,

discriminados e humildes,

lembrando passadas eras...


Beco do Cisco.

35 Beco do Cotovelo.

Beco do Antônio Gomes.

Beco das Taquaras.

Beco do Seminário.

Bequinho da Escola.

40 Beco do Ouro Fino.

Beco da Cachoeira Grande.

Beco da Calabrote.

Beco do Mingu.

Beco da Vila Rica...


45 Conto a estória dos becos,

dos becos da minha terra,

suspeitos... mal afamados

onde família de conceito não passava.

“Lugar de gentinha” - diziam, virando a cara.

50 De gente do pote d’água.

De gente de pé no chão.

Becos de mulher perdida.

Becos de mulheres da vida.

Renegadas, confinadas

55 na sombra triste do beco.

Quarto de porta e janela.

Prostituta anemiada,

solitária, hética, engalicada,

tossindo, escarrando sangue

60 na umidade suja do beco.


Becos mal assombrados.

Becos de assombração...

Altas horas, mortas horas...

Capitão-mor - alma penada,

65 terror dos soldados, castigado nas armas.

Capitão-mor, alma penada,

num cavalo ferrado,

chispando fogo,

descendo e subindo o beco,

70 comandando o quadrado - feixe de varas...

Arrastando espada, tinindo esporas...


Mulher-dama. Mulheres da vida,

perdidas,

começavam em boas casas, depois,

75 baixavam pra o beco.

Queriam alegria. Faziam bailaricos.

- Baile Sifilítico - era ele assim chamado.

O delegado-chefe de Polícia - brabeza -

dava em cima...

80 Mandava sem dó, na peia.

No dia seguinte, coitadas,

cabeça raspada a navalha,

obrigadas a capinar o Largo do Chafariz,

na frente da Cadeia.


85 Becos da minha terra...

Becos de assombração.

Românticos, pecaminosos...

Têm poesia e têm drama.

O drama da mulher da vida, antiga,

90 humilhada, malsinada.

Meretriz venérea,

desprezada, mesentérica, exangue.

Cabeça raspada a navalha,

castigada a palmatória,

95 capinando o largo,

chorando. Golfando sangue.


(ÚLTIMO ATO)


Um irmão vicentino comparece.

Traz uma entrada grátis do São Pedro de Alcântara.

100 Uma passagem de terceira no grande coletivo de São Vicente.

Uma estação permanente de repouso - no aprazível São Miguel.

Cai o pano.


CORALINA, Cora. Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. 21ª ed. - São Paulo: Global Editora, 2006.


Texto 2


O ELEFANTE



1 Fabrico um elefante

de meus poucos recursos.

Um tanto de madeira

tirado a velhos móveis


5 talvez lhe dê apoio.

E o encho de algodão,

de paina, de doçura.

A cola vai fixar

suas orelhas pensas.

10 A tromba se enovela,

é a parte mais feliz

de sua arquitetura.


Mas há também as presas,

dessa matéria pura

15 que não sei figurar.

Tão alva essa riqueza

a espojar-se nos circos

sem perda ou corrupção.

E há por fim os olhos,

20 onde se deposita

a parte do elefante

mais fluida e permanente,

alheia a toda fraude.


Eis o meu pobre elefante

25 pronto para sair

à procura de amigos

num mundo enfastiado

que já não crê em bichos

e duvida das coisas.

30 Ei-lo, massa imponente

e frágil, que se abana

e move lentamente

a pele costurada

onde há flores de pano

35 e nuvens, alusões

a um mundo mais poético

onde o amor reagrupa

as formas naturais.


Vai o meu elefante

40 pela rua povoada,

mas não o querem ver

nem mesmo para rir

da cauda que ameaça

deixá-lo ir sozinho.


45 É todo graça, embora

as pernas não ajudem

e seu ventre balofo

se arrisque a desabar

ao mais leve empurrão.

50 Mostra com elegância

sua mínima vida,

e não há cidade

alma que se disponha

a recolher em si

55 desse corpo sensível

a fugitiva imagem,

o passo desastrado

mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres

60 e situações patéticas,

de encontros ao luar

no mais profundo oceano,

sob a raiz das árvores

ou no seio das conchas,

65 de luzes que não cegam

e brilham através

dos troncos mais espessos.

Esse passo que vai

sem esmagar as plantas

70 no campo de batalha,

à procura de sítios,

segredos, episódios

não contados em livro,

de que apenas o vento,

75 as folhas, a formiga

reconhecem o talhe,

mas que os homens ignoram,

pois só ousam mostrar-se

sob a paz das cortinas

80 à pálpebra cerrada.


E já tarde da noite

volta meu elefante,

mas volta fatigado,

as patas vacilantes

85 se desmancham no pó.

Ele não encontrou

o de que carecia,

o de que carecemos,

eu e meu elefante,

90 em que amo disfarçar-me.

Exausto de pesquisa,

caiu-lhe o vasto engenho

como simples papel.

A cola se dissolve

95 e todo o seu conteúdo

de perdão, de carícia,

de pluma, de algodão,

jorra sobre o tapete,

qual mito desmontado.

100 Amanhã recomeço.



ANDRADE, Carlos Drummond de. O Elefante. 9ª ed. - São Paulo: Editora Record, 1983.

O texto 1 se inicia em um processo descritivo e passa para o descritivo-narrativo. Isso se confirma pelo(a)


A

contraste entre o uso abundante de adjetivos concomitante ao parco uso de formas verbais nas primeiras estrofes em relação à recorrência de formas verbais indicativas de ação conjugadas, predominantemente, no pretérito imperfeito do modo indicativo nas estrofes finais.


B

uso de verbos conjugados na primeira pessoa do singular do modo indicativo nas primeiras estrofes em contraste com os verbos conjugados em terceira pessoa do pretérito imperfeito do indicativo nas estrofes finais.


C

frequência com que aparecem, no início do poema, palavras cujos significados estão associados à tristeza e ao abandono dos becos em contraste com o final do poema em que comparecem forças preocupadas em garantir ordem na vida pública.


D

fato de que a escritora se conforma ao processo mais tradicional na construção dos poemas.


E

necessidade de dar ao poema um tom realista, afastando-o do romantismo tradicionalmente associado às formas poéticas como um todo.