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Texto 1
A CRISE AMBIENTAL
Benedito Braga
01 Segundo Miller (1985), nosso planeta pode ser comparado a uma astronave que dispõe
de um eficiente sistema de aproveitamento de energia solar e de reciclagem de matéria,
deslocando-se a cem mil quilômetros por hora pelo espaço sideral. Há atualmente na
astronave ar, água e comida suficientes para manter seus passageiros. Tendo em vista o
05 progressivo aumento do número desses passageiros, em forma exponencial, e a ausência de
portos para reabastecimento, podem-se vislumbrar, em médio e longo prazos, problemas
sérios para a manutenção de sua população.
Pela segunda lei da termodinâmica, o uso da energia implica degradação de sua
qualidade. Como consequência da lei da conservação da massa, os resíduos energéticos,
10 principalmente na forma de calor, somados aos resíduos de matéria, alteram a qualidade do
meio ambiente no interior dessa astronave. A tendência natural de qualquer sistema, como
um todo, é de aumento de sua entropia (grau de desordem). Assim, os passageiros,
utilizando-se da inesgotável energia solar, processam, por meio de sua tecnologia e de seu
metabolismo, os recursos naturais finitos, gerando, inexoravelmente, algum tipo de poluição.
15 O nível de qualidade de vida no planeta dependerá do equilíbrio entre estes três elementos:
população, recursos naturais e poluição. Os aspectos mais relevantes de cada vértice do
triângulo formado por esses elementos e suas interligações são analisados nos itens
subsequentes.
1.1 População
20 A população mundial cresceu de 2,5 bilhões em 1950 para 6,2 bilhões no ano 2002 (...) e,
atualmente, a taxa de crescimento se aproxima de 1,13% ao ano. De acordo com a analogia
da astronave, isso significa que, nos dias de hoje, ela transporta 6,2 bilhões de passageiros
e, a cada ano, outros 74 milhões de passageiros nela embarcam. Esses passageiros estão
divididos em 227 nações nos cinco continentes, poucas das quais pertencem aos chamados
25 países desenvolvidos, com 19% da população total. As demais são os chamados países em
desenvolvimento ou subdesenvolvidos, com os restantes 81% da população. Novamente,
usando a analogia com a astronave, é como se os habitantes dos países desenvolvidos
fossem passageiros de primeira classe, enquanto os demais viajam no porão. Em
decorrência das altas taxas de crescimento populacional que hoje somente ocorrem nos
30 países menos desenvolvidos, essa situação de desequilíbrio tende a se agravar ainda mais:
em 1950, os países desenvolvidos tinham 31,5% da população mundial; em 2002, apenas
19,3%; e, em 2050, terão 13,7% (…).
Um casal que tenha cinco filhos, os quais, por sua vez, tenham cinco filhos cada um,
representa, a partir de duas pessoas, uma população familiar de 25 pessoas em duas
35 gerações. Esse fenômeno vem ocorrendo mundialmente desde meados do século XIX, com
a Revolução Industrial. A partir dessa revolução, a tecnologia proporcionou uma redução da
taxa bruta de mortalidade, responsável pelo aumento da taxa de crescimento populacional
anual, apesar de a taxa de natalidade estar se reduzindo desde aquela época até os dias
atuais.
(…)
40 Dentro dessa perspectiva de crescimento, cabe questionar até quando os recursos
naturais serão suficientes para sustentar os passageiros da astronave Terra. Existem
autores, como Lappe e Collins (1977), que contestam a tese de insuficiência de recursos
naturais e responsabilizam a má distribuição da renda e a má orientação da produção
agrícola pela fome do mundo hoje.
45 1.2 Recursos naturais
Recurso natural é qualquer insumo de que os organismos, as populações e os
ecossistemas necessitam para sua manutenção, sendo, portanto, algo útil. Há uma estreita
relação entre recursos naturais e tecnologia, toda vez que ocorrerem processos tecnológicos
para utilização de um recurso. Exemplo típico é o magnésio, até pouco tempo não era
50 considerado um recurso natural e passou a sê-lo quando se descobriu como utilizá-lo na
confecção de ligas metálicas para aviões. Recursos naturais e economia interagem de modo
bastante evidente, pois algo é recurso na medida em que sua exploração é economicamente
viável. Exemplo dessa situação é o álcool, que, antes da crise do petróleo de 1973,
apresentava custos de produção extremamente elevados em relação aos custos de
55 exploração de petróleo. Hoje, no Brasil, apesar da diminuição do Proálcool, o álcool ainda
pode ser considerado um importante combustível para automóveis e um recurso natural
estratégico de alta significância uma vez que há possibilidade de sua renovação e
consequente disponibilidade. Sua utilização efetiva depende de análises políticas e
econômicas que poderão ser revistas sempre que necessário.
60 Finalmente, algo se torna recurso natural caso sua exploração, processamento e
utilização não causem danos ao meio ambiente. Assim, na definição de recurso natural,
encontramos três tópicos relacionados: tecnologia, economia e meio ambiente.
1.3 Poluição
Completando o terceiro vértice do triângulo, como resultado da utilização dos recursos
65 naturais pela população surge a poluição que é uma alteração indesejável nas características
físicas, químicas ou biológicas da atmosfera, litosfera ou hidrosfera, podendo causar prejuízo
à saúde, à sobrevivência ou às atividades dos seres humanos e outras espécies ou ainda
deteriorar materiais. Para fins práticos, em especial do ponto de vista legal de controle da
poluição, acrescentamos que o conceito de poluição deve ser associado às alterações
70 indesejáveis provocadas pelas atividades e intervenções humanas no ambiente. Desse
modo, uma erupção vulcânica, apesar de poder ser considerada uma fonte poluidora, é um
fenômeno natural não provocado pelo homem e que foge ao seu controle, assim como outros
fenômenos naturais, como incêndios florestais, grandes secas ou inundações.
Poluentes são resíduos gerados pelas atividades humanas, causando um impacto
75ambiental negativo, ou seja, uma alteração indesejável. Dessa maneira, a poluição está
ligada à concentração, ou quantidade de resíduos presentes no ar, na água ou no solo. Para
que se possa exercer o controle da poluição de acordo com a legislação ambiental, definem-
se padrões e indicadores de qualidade do ar (concentrações de CO, NOx, SOx, Pb etc.), da
água (concentração de O2, fenóis e Hg, pH, temperatura etc.) e do solo (taxa de erosão etc.)
80 que se deseja respeitar em um determinado ambiente.
Os efeitos detectados mais recentemente, como o efeito estufa e a redução da camada
de ozônio, ainda não são bem conhecidos, mas podem trazer consequências que afetarão o
clima e o equilíbrio do planeta como um todo. É importante um esforço conjunto e sem
precedentes para que se possa conhecer esses efeitos e controlá-los de modo eficaz. Os
85 efeitos globais têm contribuído bastante para a sensibilização recente da sociedade sobre
questões ambientais, merecendo destaque na mídia e na agenda de políticos e grupos
ambientalistas em todo o planeta. Isso talvez possa ser explicado pela incerteza que os
humanos passaram a experimentar em relação à própria sobrevivência da espécie e pela
constatação de sua incapacidade de entender e controlar os processos e as transformações
90 ambientais decorrentes de suas atividades. Até recentemente, acreditava-se que a
inteligência e a tecnologia resolveriam qualquer problema e que não havia limites para o
desenvolvimento da espécie e para a utilização de matéria e energia na busca de conforto e
qualidade de vida.
BRAGA, Benedito et alli. Introdução à Engenharia Ambiental. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2005, 2a Ed, pp. 2-6. (Texto adaptado).
Texto 2
O HOMEM: AS VIAGENS
Carlos Drummond de Andrade
1
1 O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
5 toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
10 coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua
2
Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
3
15 Vamos para Marte – ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
20 civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.
4
Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
5
Claro – diz o engenho
25 sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto – é isto?
idem
30 idem
idem.
6
O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
35 repetir o inquieto
repetitório.
7
Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
40 só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
45 espanhol domado.
8
Restam outros sistemas fora
do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
50 (estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
55 experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
60 descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.
ANDRADE, Carlos Drummond. Nova reunião: 19 livros de poesia – 3ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978, pp. 448-450.
Texto 3
OS LUSÍADAS
CANTO PRIMEIRO
Luís de Camões
1
1 As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
5 Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
2
E também as memórias gloriosas
10 Daqueles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;
15 Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
3
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
20 A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
(…)
106
25 No mar tanta tormenta e tanto dano
Tantas vezes a morte apercebida
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida
Onde pode acolher-se um fraco humano
30 Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
CAMÕES, Luís de (1524-1580). Os Lusíadas. São Paulo: Abril Cultural, [1572] 1979, pp. 29- 31 e 61.
Assinale a alternativa em que a substituição da expressão uma vez que (linha 57 do Texto 1) pelo conectivo proposto alteraria o nexo estabelecido no texto.
porque;
visto que;
apesar de que;
porquanto;
já que.