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1 A fotografia inventada dentro de uma época
positivista ‒ primeiras décadas do século
XIX ‒ criou e referendou sua posição como
espelho do real, mimese de um mundo sem nenhuma
5 interferência de um olho pensante, a falsa ideia
de um registro documental isento: prova de um
discurso oral ou escrito. Contra essa crença, vários
pensadores da fotografia tentaram se insurgir e,
dentro dessas linhas de pensamento, também a
10 sociologia. Ao tecer textos trazendo a fotografia
como protagonista e não apenas como suporte de
outras formas de expressão, o sociólogo José de
Souza Martins demonstra, em seu mais recente
livro, Sociologia da Fotografia e da Imagem, que "o
15 icônico é essencialmente expressão de uma necessidade
do imaginário, uma linguagem e umdiscurso
visual".
Na obra, Martins rebate a ideia de que a
fotografia "congela" momentos, deixando bem claro
20 que é o contrário: cada imagem narra ou cria uma
história. O que o autor defende é o reconhecimento
da imagem como documento do imaginário social e
não como registro factual de uma realidade social.
Para quem quer estudar ou pensar fotogra-
25 fia‒ algo fundamental na sociedade contemporânea
‒, os textos de Martins são fundamentais. Não
entregam receitas de leitura ou compreensão da
imagem, mas nos instigam a pensar em seu papel
como representante da imaginação coletiva de
30 determinado momento social.
Sociologia da Fotografia e da Imagem
começa com a discussão da fotografia e vida cotidiana.
A fotografia é entendida como uma interpretação
de um real que não se deixa simplesmente
35 congelar ou aprisionar, mas que a cada olhada nos
permite novas significações, novas possibilidades
para entender representações da sociedade, num
certo período sócio-histórico.
No livro, para além do cotidiano, existe a
40 temática dos ritos da sociedade, formas que a
ajudam a se estruturar, e Martins nos apresenta um
belo ensaio sobre as fotografias dos atos de fé no
Brasil, trabalho realizado por cinco fotógrafos com
olhares diferentes sobre essas questões.
45 Ao tentar analisar essas imagens, Martins
nos dirige para a questão da imaginação fotográfica,
dos vários modos de ver, que pertencem à imaginação
do fotógrafo, mas também à imaginação de
quem decifra imagens. Essa discussão no livro leva
50 a um novo capítulo, onde o sociólogo analisa o
trabalho do fotógrafo Sebastião Salgado, mais especificamente
seu ensaio Êxodos. E, aqui, surge o
embate entre documentação e estética, como se
uma fosse excludente da outra, ideia com que
55 Martins não concorda. Claro que existe sempre uma
busca, ou melhor, uma narrativa estética ao se criar
um discurso, seja ele qual for.
É de destacarmos, por fim, o primoroso
ensaio O Impressionismo na Fotografia e a
60 Sociologia da Imagem, em que podemos ver defendida
com mais vigor a tese de Martins da necessidade
de aprender a ver. E para não ficar somente na
teoria, o autor nos apresenta seu próprio ensaio
fotográfico sobre o Carandiru durante o processo de
65 desativação do prédio. Um estudioso que tem as
duas visões da análise imagética: a teoria e o fazer.
"Decifrar o que se esconde por trás do visível ou do
fotografável continua sendo um desafio para os
cientistas que se documentam com expressões
70 visuais da realidade social." Na tessitura de seu
pensamento - formado, aliás, com muitos estudos
sobre história da fotografia e fotógrafos -, Martins
nos chama atenção para a necessidade de uma
sociologia do conhecimento visual para aprender a
75 ler e interpretar imagens, em especial a fotográfica:
"Sociólogos e antropólogos precisam muito mais do
que uma foto para compreender o que uma foto
contém." E assim é, pois desde muito alguém já nos
disse que a fotografia é um tipo especial de conheci-
80mento.
Fonte: PERSICHETTI, Simonetta. Documento do imaginário social. Jornal O Estado de S. Paulo. Edição de 15/11/08. (Adaptado) Disponível em: https://cultura.estadao.com.br/noticias/artes-documento-do-imaginario-social,278319. Acesso em 04/07/2018.
Considere as afirmativas sobre o conteúdo e a organização linguística do texto.
I → Sem prejuízo da coesão e da coerência, a expressão Contra essa crença (ℓ.7) poderia ser reescrita como Contra essa falácia da imparcialidade da fotografia.
II → As ideias de José de Souza Martins vão ao encontro da tese de que a fotografia é um espelho do real, um registro documental isento.
III → Sobre o sociólogo em foco na reportagem, infere-se que a sua tese sobre a necessidade de uma sociologia do conhecimento visual está baseada também em sua experiência pessoal com a fotografia.
Está(ão) correta(s)
apenas I.
apenas II.
apenas I e III.
apenas II e III.
I, II e III.