

Seu próximo nível começa aqui
Seu desenvolvimento não pode ter limites. Garanta sua Assinatura Ilimitada e libere uma preparação completa com os melhores professores do Brasil.
TEXTO I
O direito à tristeza
Contardo Calligaris
1___As crianças têm dois deveres. Um, salutar, é o dever de crescer e parar de ser crianças. O outro, mais complicado, é o de
2 ser felizes, ou melhor, de encenar a felicidade para os adultos.
3___Esses dois deveres são um pouco contraditórios, pois, crescendo e saindo da infância, a gente descobre, por exemplo, que
4 os picolés não são de graça. Portanto, torna-se mais difícil saltitar sorrindo pelos parques à espera de que a máquina fotográfica
5 do papai imortalize o momento. Em suma, se obedeço ao dever de crescer, desobedeço ao dever de ser feliz.
6___A descoberta dessa contradição pode levar uma criança a desistir de crescer. E pode fazer a tristeza (às vezes o desespero)
7 de outra criança, incomodada pela tarefa de ser, para a família inteira, a representante da felicidade que os adultos perderam
8 (por serem adultos, porque a vida é dura, porque doem as costas, porque o casamento é tenso, porque não sabemos direito o
9 que desejamos).
10___A ideia da infância como um tempo específico, bem distinto da vida adulta, sem as atrapalhações dos desejos sexuais, sem
11_os apertos da necessidade de ganhar a vida, é recente. Tem pouco mais de 200 anos. Idealizar a infância como tempo feliz é
12 uma peça central do sentimento e da ideologia da modernidade.
13 __É crucial lembrar-se disso na hora em que somos convidados a espreitar índices e sinais de depressão nas nossas crianças.
14___O convite é irresistível, pois a criança deprimida contraria nossa vontade de vê-la feliz. Um menino ou uma menina triste nos
15 privam de um espetáculo ao qual achamos que temos direito: o espetáculo da felicidade à qual aspiramos, da qual somos
16 frustrados e que sobra para as crianças como uma tarefa. "Meu filho, minha filha, seja feliz por mim."
17___É só escutar os adultos falando de suas crianças tristes para constatar que a vida da criança é sistematicamente
18 desconhecida por aqueles que parecem se preocupar com a felicidade do rebento. "Como pode, com tudo que fazemos e fizemos
19 por ela?" ou "Como pode, ele que não tem preocupação nenhuma, ele que é criança?". A criança triste é uma espécie de desertor;
20 abandonou seu lugar na peça da vida dos adultos, tirou sua fantasia de palhaço.
21___Conselho aos adultos (pais, terapeutas etc.): quando uma criança parece estar deprimida, o mais urgente não é reconhecer
22 os "sinais" de uma doença e inventar jeitos de lhe devolver uma caricatura de sorriso. O mais urgente, para seu bem, é reconhecer
23 que uma criança tem o DIREITO de estar triste, porque ela não é apenas um boneco cuja euforia deve nos consolar das perdas
24 e danos de nossa existência; ela tem vida própria.
25__Mais uma observação para evitar a precipitação. Aparentemente, nas últimas décadas, a depressão se tornou uma doença
26 muito comum. Será que somos mais tristes que nossos pais e antepassados próximos? Acredito que não. As más línguas dizem
27 que a depressão foi promovida como doença pelas indústrias farmacêuticas, quando encontraram um remédio que podiam
28 comercializar para "curá-la". Mas isso seria o de menos. É mais importante notar que a depressão se tornou uma doença tão
29 relevante (pelo número de doentes e pela gravidade do sofrimento) porque ela é um pecado contra o espírito do tempo. Quem
30 se deprime não pega peixes e ainda menos sobe no bonde andando.
31___Será que vamos conseguir transformar também a tristeza infantil num pecado?
32___Claro que sim. Aliás, amanhã, quando seu filho voltar da escola, além de verificar se ele não está com frieiras, veja também
33 se ele não pegou uma deprê. E, se for o caso, dê um castigo, pois, afinal, como é que ele ousa fazer cara feia quando acabamos
34 de lhe comprar um gameboy? Ora! E, se o castigo não bastar, pílulas e terapia nele. Qualquer coisa para evitar de admitir que a
35 infância não é nenhum paraíso.
2Disponível em: https://www.fronteiras.com
No fragmento “O convite é irresistível, pois a criança deprimida contraria nossa vontade de vê-la feliz” (l. 14), a conjunção em destaque não pode ser substituída po
dado que.
uma vez que.
haja vista.
de modo que.