Leia o Texto 1 para responder às questões de 01 a 03.
Texto 1
O maniqueísmo que nos alimenta e o amor que nos falta
Sérgio Pardellas
- Acordamos e logo somos tragados pelo maniqueís-
- mo. A política nacional está empanturrada dele — um
- mal que não escolhe governos, muito menos ideolo-
- gias. Maniqueu, filósofo do século III, cuja doutrina
- afirma existir o dualismo entre dois princípios opostos
- — o bem e o mal, o certo e o errado —, transbordaria
- de orgulho dos súditos que amealhou. A lógica biná-
- ria é capaz de corromper até o “fundo insubornável
- do ser” de que dizia Ortega y Gasset. Não raro, a
- queda-de-braço retórica gira em torno de “quem está
- do lado correto da história”. Não demora e alguém
- avoca para si o monopólio da virtude. Logo, o opo-
- nente é a encarnação do que há de mais desgraçado
- no mundo. Muitas vezes, a polarização faz lembrar
- um museu de grandes novidades. O tempo não para
- e o argumento, outrora música para os ouvidos de
- um, passa a embalar a valsa do outro.
- Se é certo que opinar sobre tudo virou um fetiche dos
- tempos modernos, também é lícito afirmar que falta
- escrúpulo de delicadeza no lançamento de pareceres
- definitivos, quando não rasos e injuriosos, sobre o
- outro. Aliás, todos parecem ter prontos na cartola juí-
- zos sobre os mais diversos temas na hora de pressu-
- por prevalência sobre terceiros. É a tal superioridade
- moral. Nessa disputa infértil sobre quem paira acima
- de quem, a língua se transformou no açoite do que
- não somos, porque não é possível que nascemos
- para chicotearmos uns aos outros sem pensarmos
- em que posturas tão cáusticas irão degenerar.
- É necessário descer ao inferno do autoconhecimento
- e desvelar a própria alma, de que falava Eric Voege-
- lin. É preciso oferecer ao outro o que gostaríamos de
- receber. Mas nem as crianças, nem os idosos, nem
- os desvalidos, nem sequer o luto dos que sofrem, ex-
- pressão máxima da dignidade humana, são respeita-
- dos mais. A urgência deve ser o amor ao próximo,
- não o ódio sem proximidade. A reação é do instinto
- humano, mas no ambiente álgido de hoje muitos con-
- tra-atacam sem serem importunados pelo simples
- prazer de atingir alguém. Ou mesmo por puro com-
- portamento de manada — uma maneira estranha de
- ser aceito ou mesmo aplaudido em suas bolhas, em
- geral, formadas por pessoas que abominam o contra-
- ditório. O filósofo e humanista francês Michel de
- Montaigne dedicou talvez o mais belo de seus ensai-
- os ao amigo Étienne de La Boétie, falecido em 1563,
- aos 32 anos. Quando indagado sobre a ligação afeti-
- va de ambos, Montaigne sacou uma das justificativas
- mais doces e profundas que a humanidade já produ-
- ziu: “porque era ele, porque era eu”. O texto levava o
- título “De l’amitié: Sobre a Amizade”. Mas bem que
- poderia se chamar “Sobre o amor”, aquele que tanto
- nos falta.
ISTOÉ. Disponível em: <https://istoe.com.br/o-maniqueismo-que-nos-ali-menta-e-o-amor-que-nos-falta/>. Acesso em: 25 jul. 2019.