Instrução: As questões 07 a 10 referem-se ao texto abaixo.
- Quem me leva à residência de Menandro Olinda é
- o padre Pedro Paulo. Disse ao maestro que eu queria
- conhecê-lo pessoalmente e o pobre homem ficou
- lisonjeado. Subimos a velha e estreita escada que
- cheira a mofo de porão, e cujos degraus rangem ao
- passo dos que sobem ou descem. O professor nos
- recebe à sua porta, abraça-me como a um velho amigo,
- mas quando lhe quero apertar a mão ele sacode a cabeça
- negativamente: “Desculpe-me, mas não costumo apertar
- a mão de ninguém. Tenho de poupá-las. São a minha
- fortuna. Com elas quero ainda conquistar o mundo”.
- Dá-me outro abraço apertado do qual suas mãos não
- participam. “Entrem. Sentem-se. Esta é a vossa casa.
- Desculpem a desordem. É a caverna dum eremita”.
- Curioso. Conheço esta sala. Talvez duma peça de
- teatro. Ou dum romance. Cheiro de bolor e tempo. O
- tapete, de tipo persa, muito poído e desbotado. Móveis
- antigos. O piano de cauda a um canto. Retratos de
- gente morta nas paredes. A máscara de gesso de
- Beethoven, copiada de bronze que está na escultura de
- Fernando Corona, na praça da Matriz de Porto Alegre.
- Poeira nos móveis. Num ângulo da sala, uma pilha de
- partituras de piano. Uma estante de tipo art noveau
- com livros. Um divã com uma coberta de veludo grená.
- Velhas cadeiras estofadas de brocado cor de ouro
- velho, mas já muito seboso e esfiapado.
- – Venha ver a vista aqui da sacada! – convida-me o
- professor.
- Aproximo-me dele. Um ranço de suor muitas vezes
- dormido exala-se do corpo deste homem alto e
- descarnado, de rosto longo, testa olímpica e pele alva.
- Seus cabelos, com grandes entradas, são ralos, já
- meio grisalhos, compridos e esfarripados.
- Avisto a Praça da República, as paineiras floridas,
- as torres da Matriz, gente andando pelas calçadas,
- namorados sentados nos bancos, o fotógrafo
- lambe-lambe postado perto do coreto.
- Voltamos para a sala. Os olhos do professor estão fitos
- em mim, como se ele estivesse procurando avaliar-me,
- tentando descobrir que espécie de homem sou.
Adaptado de VERISSIMO, E. Incidente em Antares. 49.ed. São Paulo: Globo, 1997.