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Prefeitura Municipal de Palmeira dos Índios
RELATÓRIO AO GOVERNO DO ESTADO DE ALAGOAS
Exmo. Sr. Governador:
Trago a V. Exa. um resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928.
Não foram muitos − os nossos recursos são exíguos. Assim minguados, entretanto, quase insensíveis ao
observador afastado, que desconheça as condições em que o Município se achava, muito me custaram.
5 COMEÇOS
O principal, o que sem demora inicial, o de que dependiam todos os outros, segundo creio, foi estabelecer
alguma ordem na administração.
Havia em Palmeira dos Índios inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante do
Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Município tinha a sua
10 administração particular, com Prefeitos coronéis e Prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses,
resolviam questões de polícia e advogavam.
Para que semelhante anomalia desaparecesse, lutei com tenacidade e encontrei obstáculos dentro da
Prefeitura e fora dela − dentro, uma resistência suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna*,
oblíqua, carregada de bílis. Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra
15 melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro.
Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos: saíram os que faziam política
e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas
obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Devo muito a eles.
Não sei se a administração do Município é boa ou ruim. Talvez pudesse ser pior.
(...)
20 CONCLUSÃO
Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas onde as retas foram
inteiramente impossíveis.
Evitei emaranhar-me em teias de aranha.
Certos indivíduos, não sei por que, imaginam que devem ser consultados; outros se julgam com
25 autoridade bastante para dizer aos contribuintes que não paguem impostos. Não me entendi com esses.
Há quem ache tudo ruim, e ria constrangidamente, e escreva cartas anônimas, e adoeça, e se morda por
não ver a infalível maroteirazinha, a abençoada canalhice, preciosa para quem a pratica, mais preciosa
ainda para os que dela se servem como assunto invariável; há quem não compreenda que um ato
administrativo seja isento da ideia de lucro pessoal; há até quem pretenda embaraçar-me em coisa tão
30 simples como mandar quebrar as pedras dos caminhos.
Fechei os ouvidos, deixei gritarem, arrecadei 1:325$500 de multas. Não favoreci ninguém. Devo ter
cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram erros da inteligência, que é fraca.
Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta.
Há descontentamento. Se a minha estada na Prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebiscito,
talvez eu não obtivesse dez votos.
Paz e prosperidade............................................................
Palmeira dos Índios, 10 de janeiro de 1929.
GRACILIANO RAMOS
Adaptado de docvirt.com.
*sorna - propositalmente lenta---
Assim minguados, entretanto, quase insensíveis ao observador afastado, que desconheça as condições em que o Município se achava, muito me custaram. (ℓ.3−4)
Para recuperar o sujeito gramatical de custaram, é preciso considerar o seguinte recurso coesivo:
elipse
catáfora
repetição
retificação