Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.
A mentirosa liberdade
- _____Comecei a escrever um novo livro, sobre os mitos e mentiras que nossa cultura expõe em
- prateleiras enfeitadas, para que a gente enfie esse material na cabeça e, pior, na alma – como se
- fosse algodão-doce colorido. Com ele chegam os medos que tudo isso nos inspira: medo de não
- estarmos bem enquadrados, medo de não sermos valorizados pela turma, medo de não sermos
- suficientemente ricos, magros, musculosos, de não participarmos da melhor balada, do clube mais
- chique, de não termos feito a viagem certa nem possuirmos a tecnologia de ponta no celular.
- Medo de não sermos livres.
- _____Na verdade, estamos presos numa rede de falsas liberdades. Nunca se falou tanto em
- liberdade, e poucas vezes fomos tão pressionados por exigências absurdas, que constituem o que
- chamo a síndrome do “ter de”. Fala-se em liberdade de escolha, mas somos conduzidos pela
- propaganda como gado para o matadouro, e as opções são tantas que não conseguimos escolher
- com calma. Medicados como somos (a pressão, a gordura, a fadiga, a insônia, o sono, a depressão
- e a euforia, a solidão e o medo tratados a remédio), cedo recorremos a expedientes, porque nossa
- libido, quimicamente cerceada, falha, e a alegria, de tanta tensão, nos escapa.
- _____Preenchem-se fendas e falhas, manchas se removem, suspendem-se prazeres como sendo
- risco e extravagância, e nos ligamos no espelho: alguém por aí é mais eficiente, moderno,
- valorizado e belo que eu? Alguém mora num condomínio melhor que o meu? Em fileira, ao longo
- das paredes, temos de parecer todos iguais nessa dança de enganos. Sobretudo, sempre jovens.
- Nunca se pôde viver tanto tempo e com tão boa qualidade, mas, no atual endeusamento da
- juventude, como se só jovens merecessem amor, vitórias e sucesso, carregamos mais um ônus
- pesadíssimo e cruel: temos de enganar o tempo, temos de aparentar 15 anos, se temos 30; 40
- anos, se temos 60; e 50, se temos 80 anos de idade. A deusa juventude traz vantagens, mas eu
- não a quereria para sempre: talvez nela sejamos mais bonitos, quem sabe mais cheios de planos
- e possibilidades, mas sabemos discernir as coisas que divisamos, podemos optar com a mínima
- segurança, conseguimos olhar, analisar e curtir – ou nos falta o que vem depois: maturidade?
- _____Parece que do começo ao fim passamos a vida sendo cobrados: O que você vai ser? O que
- vai estudar? Como? Fracassou em mais um vestibular? Já transou? Nunca transou? Treze anos e
- ainda não ficou? E ainda não bebeu? Ainda aguenta os chatos dos pais? Saiba que eles o controlam
- sob o pretexto de que o amam. Sai dessa! Já precisa trabalhar? Que chatice! E depois: Quarenta
- anos ganhando tão pouco e trabalhando tanto? E não tem aquele carro? Nunca esteve naquele
- resort?
- _____Talvez a gente possa escapar dessas cobranças sendo mais natural, cumprindo deveres
- reais, curtindo a vida sem se atordoar. Nadar contra toda essa louca correnteza. Ter opiniões
- próprias, amadurecer, ajuda. Combater a ânsia por coisas que nem queremos, ignorar ofertas no
- fundo desinteressantes, como roupas ridículas e viagens sem graça, isso ajuda. Descobrir o que
- queremos e podemos é um bom aprendizado, mas leva algum tempo: não é preciso escalar o
- Himalaia social nem ser uma linda mulher nem um homem poderoso. É possível estar contente e
- ter projetos bem depois dos 40 anos, sem um iate, um físico perfeito e uma grande fortuna. Sem
- cumprir tantas obrigações fúteis e inúteis, como nos ordenam os mitos e mentiras de uma
- sociedade insegura, desorientada, em crise. Liberdade não vem de correr atrás de “deveres”
- impostos de fora, mas de construir a nossa existência, para a qual, com todo esse esforço e
- desgaste, sobra tão pouco tempo. Não temos de correr angustiados atrás de modelos que nada
- têm a ver conosco, máscaras, ilusões e melancolia para aguentar a vida, sem liberdade para
- descobrir o que a gente gostaria mesmo de ter feito.
Texto especialmente adaptado para esta prova. Disponível em https://www.contioutra.com/a-mentirosa-liberdade-lya-luft/. Acesso em 9 set. 2018.