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A resposta de “Myrna” – isto é, de Nelson Rodrigues – à...

As questões de números 09 a 16 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.


Texto 2


  1. ___ Em julho de 1948, Nelson Rodrigues lançou mais uma novela de “Suzana Flag”: “Núpcias
  2. de fogo”. O primeiro capítulo saiu simultaneamente em “O Cruzeiro” e “O Jornal”, e o folhetim
  3. seguiu depois no matutino. Os leitores pareciam não se cansar de “Suzana Flag” – Nelson é que
  4. já não a tolerava mais. Estava com a cabeça definitivamente no teatro e só continuava escrevendo
  5. folhetins ............. precisava sustentar-se. Em 1949, Freddy Chateaubriand trocou sua função de
  6. diretor de “O Jornal” pelo comando no “Diário da Noite” e levou Nelson com ele. A pedido de
  7. Nelson, deixaram “Suzana Flag” para trás, congelada e morta.
  8. ___ Mas Nelson não ficou livre. Em lugar de “Suzana Flag”, Freddy inventou “Myrna”, a nova
  9. máscara feminina de Nelson Rodrigues. Dava na mesma, exceto que “Myrna” teria um concorrente
  10. à altura no “Diário da Noite”: o folhetim “Giselle, a espiã nua que abalou Paris”, assinado por
  11. “Giselle de Monfort” – na verdade, David Nasser – e ilustrado com fotos moderadamente eróticas
  12. de Jean Manzon, com modelos cariocas. Talvez por essa, talvez por outras razões, “Myrna” não
  13. conheceu a glória longeva de “Suzana Flag”. Viveu apenas um ano, durante o qual produziu “A
  14. mulher que amou demais” – e propiciou a Freddy Chateaubriand uma ideia que ele não tivera em
  15. “O Jornal”.
  16. ___ A correspondência de “Myrna” era tão descomunal que era uma pena não transformá-la
  17. num “correio sentimental”. Ei, e ............ não? As leitoras acreditavam em “Myrna” e escreviam
  18. contando suas brigas com a mãe ou com o namorado, pedindo conselhos. Nelson poderia
  19. responder-lhes, com a solidariedade que sempre dispensara ........ mulheres – e faturando mais
  20. alguma grana. A seção se chamaria “Myrna escreve” e teria a ilustração de uma mulher com os
  21. olhos tarjados; Nelson escreveria na primeira pessoa do feminino.
  22. ___ Numa das cartas, a leitora contava que, mal conhecera um rapaz, apaixonou-se por ele e
  23. lhe emprestou um valioso anel; o namorado pôs o anel no prego, jogou nos cavalos e ficou sem
  24. dinheiro para resgatar a cautela; a mãe obrigou-a a largar o rapaz e lhe raspou a cabeça, para
  25. que tão cedo não saísse de casa. A moça perguntava a “Myrna”: “Pode-se amar um ladrão?”
  26. _____ Nelson, lixando unhas invisíveis, respondeu: “Ai de nós, Fulana! Uma mulher pode,
  27. perfeitamente, gostar de um ladrão. Por um motivo: o coração não enxerga um palmo ______ do
  28. nariz. Se ele só se inclinasse por rapazes direitos, estaria tudo salvo. De onde ______ as tragédias
  29. amorosas? Precisamente, do fato de que ninguém escolhe certo, mas escolhe, quase sempre,
  30. errado. Vou mais longe: a gente não escolhe certo, nem errado. A gente não escolhe.
  31. ___ “Gostamos e deixamos de gostar, por uma série de fatores estranhos à nossa vontade. De
  32. forma que, em realidade, tudo é uma pura e simples questão de sorte. Às vezes coincide que o
  33. nosso amor seja um cidadão seríssimo, respeitador, cumpridor dos deveres. Foi o quê? Uma
  34. escolha consciente? Uma seleção hábil? Não, em absoluto. Foi sorte, nada mais que sorte. A
  35. mulher pode amar, segundo sua estrela, um escafandrista, um domador, um trocador de ônibus
  36. ou um príncipe. ______ você, Fulana, coube a seguinte sorte: amar um ladrão.”



(Extraído e adaptado de Rui Castro, O Anjo Pornográfico: A Vida de Nelson Rodrigues.

São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p.219-220. 517 palavras.)

A resposta de “Myrna” – isto é, de Nelson Rodrigues – à carta da leitora (nas linhas 26 a 36) contém uma “teoria do amor feminino”. Assinale a alternativa que melhor sintetiza essa “teoria”.


A

As mulheres não sabem escolher.


B

Uma mulher pode amar um ladrão.


C

A algumas mulheres cabe amar um ladrão.


D

O coração feminino não enxerga os “rapazes direitos”.


E

As mulheres não têm controle sobre seu coração, e tudo depende do acaso.