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Leia o texto que se segue e responda às questões de 01 a 10.
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Como os brasileiros veem a ciência e os cientistas?
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Análise de três décadas de pesquisas de opinião desfaz mitos e traz revelações: população diz estar tão interessada em ciência quanto por esporte, mas pouquíssimos conseguem citar o nome de um pesquisador brasileiro ou de uma instituição.
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01------.A celebrada antropóloga norte-americana Margaret Mead (1901-1978) coletou, nos anos 1950,
02--centenas de desenhos de crianças, de diversos países, sobre o satélite artificial soviético Sputnik, a bomba
03--atômica, e, sobretudo, a figura do cientista. Confirmou o que muitos presumiam: a representação popular dos
04--cientistas não era boa. Carregada de estereótipos, mostrava os pesquisadores como afastados da
05--sociedade, estranhos e, eventualmente, perigosos. Mead descobriu que quase ninguém sequer gostaria de
06--se casar, ou que um filho se casasse, com cientistas. Foi com esse triste retrato que surgiram os primeiros
07--indicadores de percepção pública da ciência.
08------As pesquisas de Mead foram motivadas pelo forte impacto na opinião pública dos Estados Unidos do
09--lançamento do Sputnik e do bombardeio atômico às cidades de Hiroshima e Nagasaki. Mas, hoje, tais
10--estudos são feitos constantemente em quase todos os países, inclusive por aqui.
11------No Brasil, a primeira pesquisa nacional sobre opinião da população com respeito a ciência e
12--tecnologia ocorreu em 1987, mas foi seguida de um hiato de quase 20 anos em que só houve levantamentos
13--regionais ou sobre temas específicos. Em 2006, 2010 e 2015, foram feitas novas enquetes por todo o país,
14--por iniciativa do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação (nome atual) em parceria com
15--outras entidades, como o Centro de Gestão e Assuntos Estratégicos, na mais recente. A partir desses dados,
16--podemos ter uma ideia do que brasileiros e brasileiras pensam sobre o assunto, e como isso mudou em 30
17--anos.
18--Visão não depende só da escolaridade
19------E quais são as descobertas principais? Na minha opinião, duas são mais importantes: a primeira é
20--que, apesar do escasso — e extraordinariamente desigual — acesso ao conhecimento científico, os
21--brasileiros são fãs da ciência e, em grande medida, entusiastas das tecnologias. Em segundo lugar,
22--percebemos que as atitudes sobre ciência, sejam eufóricas ou cautelosas, não dependem somente do
23--conhecimento em ciências ou do hábito de informar-se. No caso do relacionamento dos brasileiros com a
24--ciência, o senso comum ditando que "ignorância gera medo" precisa ser repensado.
25--Pouco informados, bastante interessados
26------Esses 30 anos de enquetes nacionais nos permitem confirmar, antes de tudo, um fato já conhecido a
27--partir de pesquisas em outras áreas: a violenta desigualdade de oportunidades e acesso ao conhecimento.
28--Menos de um cidadão em cada 10 diz se lembrar do nome de algum cientista brasileiro (entre os mais
29--citados, Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Miguel Nicolelis, Vital Brazil, Santos Dumont e Cesar Lattes). Só 13%
30--se recordam de alguma instituição que faça pesquisa científica (entre as mais citadas, Fiocruz, Embrapa,
31--Instituto Butantan, USP, IBGE). Entre pessoas de baixa escolaridade, tal percentual se aproxima de zero,
32--mas muitos com ensino superior também não conseguem citar qualquer instituição ou cientista.
33------É um dado paradoxal. Em um país onde todo cidadão diz que a educação é importante, onde tanto
34--aqueles que estudaram numa universidade como os que não o fizeram percebem o prestígio dessas
35--instituições e, frequentemente, conhecem o nome das principais em sua região, entidades de pesquisa
36--celebradas ou nossas maiores universidades não são lembradas ao se perguntar sobre ciência. Parecem
37--estar associadas, na mente de muitos, ao ensino e à formação, mas não tanto à ciência e à pesquisa.
38------Tais dados são coerentes com indicadores da área de educação e com outros dados dessas
39--enquetes, por exemplo sobre a frequência a locais de difusão da cultura, como museus, jardins botânicos e
40--bibliotecas. A visitação dos brasileiros a esses lugares aumentou nos últimos anos, graças a investimentos e
41--políticas públicas, mas ainda é pequena se comparada aos índices de outros países. Reflete sobretudo a
42--desigualdade: pessoas de baixa renda e escolaridade frequentam menos tais espaços.
43------Uma antiga hipótese, um pouco ingênua, mas ainda presente no senso comum, é que o escasso
44--conhecimento é fruto direto da suposta falta de interesse dos brasileiros, e que, portanto, se conseguíssemos
45--"intrigar", "cativar" mais os cidadãos, a familiaridade com a ciência aumentaria. Muitos editores, jornalistas,
46--cientistas ou políticos ainda hoje estão convencidos de que os brasileiros, em sua maioria, não têm interesse
47--por temas de cunho científico ou tecnológico. Pois essa convicção é, ao menos em parte, falha: nem sempre
48--a falta de informação se deve à falta de percepção da relevância de um tema; e os dados demonstram que,
49--no Brasil, somos, sim, interessados nesses assuntos.
50------Dados das enquetes feitas ao longo de 30 anos confirmam: os brasileiros se declaram interessados
51--em C&T, em média, tanto quanto os habitantes da Europa e dos Estados Unidos. Tal interesse cresceu após
52--1986, entre todos os grupos sociais. E tem mais: os brasileiros tendem a apreciar C&T (em 2015, 61% diziam
53--ser interessados ou muito interessados) tanto quanto o esporte (56%), tema apaixonante para a nação.
54--Também se dizem tão interessados em temas como saúde ou meio ambiente quanto em religião, vivência
55--central para a maioria.
56--Otimismo, sem ingenuidade
57------Outros aspectos que marcam nossa cultura — apontam as pesquisas — são o otimismo em relação
58--ao desenvolvimento da C&T e a visão positiva sobre ciência e cientistas. "Ordem e progresso" não parece ter
59--ficado só em nossa bandeira. A maioria dos brasileiros valoriza os benefícios da C&T, confia nos cientistas
60--como fonte de informação, tem uma imagem em geral positiva do cientista e de suas motivações, além de
61--considerar importante conhecer a ciência e investir em pesquisa.
62------Os brasileiros, em média, se declaram mais otimistas quanto aos efeitos da C&T do que os cidadãos
63--da maioria dos países europeus. A fração de pessoas que consideram que a ciência e a tecnologia só trazem
64--benefícios para a humanidade está entre as maiores do mundo, e aumentou ao longo das décadas.
65------A confiança nos cientistas também é elevada. Questionados em quais fontes de informação confiam
66--mais e menos, os brasileiros colocam os políticos como os atores sociais menos confiáveis. No topo da
67--confiabilidade, médicos, cientistas, jornalistas. Ao crescer da escolaridade, confiam mais e mais nos
68--cientistas que trabalham em instituições públicas.
69------Apesar de muitos cientistas estarem preocupados com movimentos anticiência, no Brasil não
70--podemos dividir a população em um grupo a favor e outro contra "a ciência". Existem grupos preocupados
71--com alguns aspectos do desenvolvimento tecnológico, mas que, em outros, são interessados em C&T,
72--favoráveis à pesquisa e confiantes na importância da ciência. As pessoas que se declaram abertamente
73--desconfiadas dos cientistas, que enxergam na C&T apenas implicações negativas, ou, ainda, que atribuem
74--aos cientistas motivações egoístas são uma fração bem abaixo de 10%.
75------Vários indicadores confirmam a imagem positiva de que os cientistas gozam em nossa sociedade.
76--Por exemplo, 44% dizem que uma das motivações do cientista é "contribuir para o avanço do conhecimento";
77--39% que é também "solucionar problemas das pessoas". E, em direto contraste com a posição de nossos
78--governantes, a maioria dos cidadãos acredita que, mesmo em momentos de crise econômica, o investimento
79--em C&T deve aumentar.
80------Tais opiniões não são apenas visões idílicas ou ingênuas de quem nunca parou para pensar nas
81--relações entre o progresso técnico, a pesquisa científica e as dimensões éticas, econômicas e ambientais de
82--nossas ações.
83--A visão da ciência: múltiplas aplicações
84------Fazer experimentos sobre como formamos opiniões a favor ou contra determinadas áreas da ciência,
85--descobrir que fatores afetam nossas atitudes ou como adquirimos conhecimento são pontos que interessam
86--a áreas diversas como psicologia social, educação, ciência da comunicação, antropologia, sociologia, dentre
87--outras. Permite investigar aspectos profundos de como funcionam a cultura, a imaginação, a difusão do
88--conhecimento.
89------As aplicações práticas de tais pesquisas são também importantes. Ao saber quais variáveis afetam o
90--interesse das pessoas por C&T, ou suas atitudes, podemos identificar públicos-alvo específicos, fortalecer a
91--apropriação da cultura científica, fornecer ferramentas para a divulgação científica ou as políticas
92--educacionais. Os dados de percepção permitem construir indicadores de interesse e apropriação social em
93--C&T, que podem ajudar a formular ou avaliar políticas públicas.
94------Homens e mulheres concordam, em sua maioria, que a pesquisa científica é essencial para indústria,
95--que os governantes deveriam seguir orientações de cientistas, que C&T ajudam na diminuição das
96--desigualdades. Por outro lado, a ciência não é vista como panaceia ou a única fonte dos avanços sociais.
97--Metade da população, aproximadamente, discorda de que C&T possam eliminar pobreza e fome. Muitos
98--também concordam que os desenvolvimentos de C&T podem ser "responsáveis" por problemas ambientais.
99--Metade dos brasileiros acredita que a pesquisa precisa obedecer às regulamentações, e que os cientistas
100--devem ser responsabilizados pelo uso do conhecimento que produzem. Metade defende o princípio de
101--precaução: uma nova tecnologia não deve ser usada se ainda não forem bem conhecidos seus riscos.
102------Por fim, a maioria da população concorda com uma afirmação forte: "Os cientistas têm
103--conhecimentos que os tornam perigosos". Tais pessoas, contudo, em geral não negam que os benefícios da
104--ciência sejam maiores que os malefícios, nem possuem uma visão negativa da figura do cientista: não se
105--trata tanto de ser "contra" os cientistas, mas de estarem preocupados com a relação entre desenvolvimento e
106--mercado, democracia, meio ambiente. A maioria dos entrevistados acredita que os cientistas tenham
107--obrigação de expor publicamente os riscos, que a população deva ser ouvida nas grandes decisões sobre
108--C&T, e que é capaz de entender o conhecimento científico se for bem explicado.
109------Tais preocupações quanto às implicações da ciência não são sinônimo de posturas anticientíficas.
110--Por exemplo, entre os brasileiros que se declaram muito preocupados com temas como mudanças climáticas,
111--agrotóxicos e energia nuclear, são poucos os que expressam visões negativas sobre a ciência: a maioria dos
112--"preocupados" são, aliás, mais informados e interessados em C&T do que os demais.
113--Opinião sobre C&T: de onde vem?
114------No Brasil, a ignorância sobre ciência não gera medo. Por outro lado, elevada escolaridade não é
115--sinônimo de visões unicamente positivas sobre C&T. Então, que tipo de fatores contribuem para nossas
116--atitudes? Não sabemos ainda. É um conjunto de elementos que não dependem apenas do acesso à
117--informação ou de escolaridade e renda. Alguns indícios são avaliados: atitudes e interesses podem depender
118--do tipo de posicionamento moral, e do engajamento em atividades sociais e políticas.
119------Algumas análises e modelos estatísticos mostraram que as pessoas têm mais chances de ter
120-- interesse por C&T não --somente ao crescer de sua escolaridade, mas, por exemplo, quando possuem
121--interesse em temas ambientais ou algum --tipo de engajamento social e político (participam de movimento
122--social, partido, sindicato etc.). Essas pessoas têm --menos chances que os demais brasileiros de serem
123--euforicamente otimistas ou puramente pessimistas: tentar resolver problemas concretos, talvez, nos leve a
124--uma visão mais cheia de nuances, menos idealizada, de como funciona a ciência. Visões sobre paridade de
125--gênero também se constituem de forma entrelaçada com visões sobre ciência: as pessoas menos
126--interessadas em C&T tendem a ser aquelas (poucas) que concordam com afirmações do tipo "os homens
127--são cientistas melhores do que as mulheres".
128------São apenas indícios, mas nos levam. a uma hipótese: será que as atitudes sobre ciência, interesse,
129--hábitos de buscar (ou não) conhecimento, dependem não só do grau de "alfabetização científica", mas
130--também de valores, redes de contatos e engajamento na sociedade? Estamos tentando descobrir a
131--resposta. Estamos estudando, como Margaret Mead, desenhos de crianças, fazendo experimentos com
132--jovens para seguir na rede sua busca por informação. Estamos investigando a difusão de boatos, ou, ainda,
133--estudando os comentários dos usuários de sites de ciência… Quem sabe, em breve, os leitores da Ciência
134--Hoje terão uma exclusiva sobre novas descobertas!
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(CASTELFRANCHI, Yurij. Como os brasileiros veem a ciência e os cientistas?, Ciência Hoje, set. 2018, ed. 347. Disponível em: <http://cienciahoje.org.br/artigo/comoos-brasileiros-veem-a-ciencia-e-os-cientistas/>)
Dentre as descrições nominais a seguir, indique a única em que o adjetivo NÃO pode vir antes ou depois do substantivo sem que a mudança de posição ocasione mudança no significado da frase em que ocorre no texto.
"triste retrato" (linha 06)
"movimentos anticiência" (linha 69)
"baixa escolaridade" (linha 31)
"áreas diversas" (linha 86)
"novas descobertas" (linha 134)