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TEXTO II
O DIPLOMA
1 Olha o diploma da mamãe! Quem tem sua mamãe, deve lhe oferecer este diploma! Era atrás do edifício da Noite, na
2 passagem lamacenta onde se aglomeram vendedores de canetas automáticas de dez cores, e outros artigos. O rapaz
3 aproximou-se da banca onde se exibiam os diplomas. Pediu licença para pegar um deles, enquanto o vendedor
4 continuava gritando a mercadoria sentimental. Mirou e remirou o papel com atenção. – Onde é que bota o retrato? –
5 Que retrato? – inquiriu o camelô. – O meu, para oferecer a ela... – Ah, compreendo, o cavalheiro quer dar um retratinho
6 a sua mamãe. Muito bem, pode colocar sua bonita estampa nas costas do diploma, está vendo? Timidamente, o rapaz
7 formulou a objeção: – Mas, se ela enquadrar o diploma e pendurar na parede, o retrato fica escondido nas costas. –
8 Perfeitamente, nesse caso, ela pode pendurar o quadro de costas e o amigo fica aparecendo. – Isso não. Eu queria botar
9 meu retrato na frente do diploma, junto disso tudo que está aí escrito. – Não tem problema, cola aqui neste canto, fica
10 mais interessante. O rapaz tirou um embrulhinho do bolso, tirou do embrulhinho sua fotografia em tamanho postal,
11 aplicou-a sobre o diploma, no lugar indicado pelo vendedor. Reconheceu aborrecido: – Cabe não. – Cabe sim. Com
12 licença, cavalheiro. Olhe como ficou bacana. – Assim ele tapa as letras da escrita. – Ora, só umas letrinhas. A maioria
13 das palavras continua visível. Que importância tem tapar algumas palavras? O cavalheiro cobre elas com o carinho de
14 sua fotografia. O rapaz continuava indeciso. Dar um diploma a sua mãe, no dia das Mães, era ideia nova, excitante. Não
15 entendia bem o que fosse diploma, porém, certamente, sua mãe o merecia; e se o diploma levasse o retrato dele,
16 deixava de ser um diploma qualquer, oferecido a qualquer mãe. Mas, como, se não tinham previsto o lugar para o
17 retrato do filho? – Vai levar? – perguntou o camelô, desejoso de fechar o negócio e voltar à pregação oratória – pois
19 eles gostam ainda mais de falar à multidão do que de vender. – Bem… eu levo. Corto o peito do meu retrato, assim ele
20 cabe sem ofender as palavras. E como eu faço para mandar para Inajaroba? – Onde fica isso, meu chapa? – Sergipe,
21 então não sabe? – Até este momento não sabia, mas não tem problema. Enrola, bota no Correio, vai de avião. – Chega
22 todo esbandalhado. – Então, passa ali na papelaria e pede para botar enchimento, fazer um embrulho bem legal. – Mais
23 um favorzinho, moço – e o rapaz baixou a voz e a cabeça. – Vai dizendo, vai dizendo. – Pode ler para mim o que está
24 escrito aí? Eu não gostava que minha mãe recebesse o diploma sem eu saber o que estou mandando dizer nele... –
25 Como todo prazer - ele leu com ênfase, para o rapaz e para o grupo em redor, a declaração de amor de um filho à sua
26 mãe, em forma de diploma.
Fonte: ANDRADE, C. Drummond de, et al. Para gostar de ler. São Paulo: Ática, 1980. v. 2.
Considerando que a percepção da língua tem variado conforme os paradigmas de pensamento linguístico, marque a alternativa que traduz a concepção de linguagem adotada na prática de ensino de língua portuguesa no Brasil, sob orientação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN).
Linguagem como expressão do pensamento, que tem origem na tradição gramatical grega e é concebida como um conjunto de signos que as pessoas utilizam para expressar o que pensam.
Linguagem como instrumento de comunicação, em que a língua é vista como um código, ou seja, um conjunto de signos que se combinam segundo regras, no contexto de um processo de comunicação.
As concepções de linguagem, seja como expressão do pensamento, seja como instrumento de comunicação, são as únicas que permitem um efetivo ensino da gramática.
Linguagem como forma de interação - nesta concepção de língua entende-se que é na interação que se estabelecem ou se concretizam discursos e não apenas comunicações.