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Leia o texto a seguir para responder às questões de 1 a 10.
FELICIDADE CLANDESTINA
1 ____ Ela possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
2 Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela
3 nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai.
4 ____ Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho.
5 Como essa menina devia nos odiar. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia
6 de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os
7 livros que ela não lia.
8 ____ Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como
9 casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
10 ____ Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o.
11 E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que
12 ela o emprestaria.
13 ____ Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava
14 devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
15 ____ No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim
16 numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro
17 a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a
18 esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo
19 estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte
20 viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei
21 pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
22 ____ Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e
23 diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir
24 a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte.
25 ____ E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não
26 escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às
27 vezes adivinho.
28 ____ Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o
29 livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina.
30 E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
31 ____ Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa,
32 apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua
33 casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco
34 elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe
35 boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de
36 casa e você nem quis ler!
37 ____ E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta
38 horrorizada da filha que tinha. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha:
39 “você vai emprestar o livro agora mesmo.” E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser."
40 Entendem? Isso valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa,
41 grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
42 ____ Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu
43 não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que
44 segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar
45 em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
46 ____ Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter.
47 Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda
48 mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns
49 instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade
50 sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia
51 orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
52 ____ Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase
53 puríssimo.
LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina. In: Todos os contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2016. p. 293-296. (Adaptado).
Em “Chegando em casa, não comecei a ler” (linha 46) ocorre um caso de variação linguística, caracterizada pelo fato de o enunciado
se iniciar com um verbo no gerúndio, dando origem a uma oração coordenada assindética.
apresentar um caso de regência verbal que comporta uma forma alternativa pouco usual.
ser constituído por um período composto, isto é, um período formado por duas orações.
construir uma proposição declarativa, formada por um elemento positivo e um negativo.
se estruturar numa sequência narrativa que relata um evento ocorrido no passado.