Leia o texto a seguir e responda às questões de 01 a 10.
Por que é tão difícil admitir que estamos errados? A psiquiatria explica
- _____Teimosia, falta de empatia, polarização política. Nós costumamos encontrar diversas justificativas para
- quando não conseguimos convencer outra pessoa de que ela está errada, mesmo quando todos os fatos
- apontam que está. E, quando alguém finalmente muda de ideia — seja ao se convencer de que a Terra é
- redonda, de que o distanciamento social é sim uma medida eficaz contra o novo coronavírus ou de que
- determinado post foi ofensivo nas redes sociais —, é difícil vê-lo publicizando seu arrependimento.
- _____Mudar de opinião e falar sobre isso não é simples, e há décadas a psicologia vem tentando entender
- por que costumamos ser tão cabeças-duras. Mais recentemente, a neurociência também entrou nessa área,
- principalmente com os estudos do laboratório britânico Affective Brain Lab, da UCL (University College
- London). O TAB conversou com a diretora, Tali Sharot, e com o psiquiatra brasileiro Rodrigo Martins Leite,
- diretor de relações institucionais do IPq USP (Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo) para
- entender quais são as raízes científicas desse problema e como ele se manifesta socialmente.
- _____Por que é difícil admitir que erramos? Para Sharot, a pergunta deve ser outra. "O problema não é
- necessariamente que a gente saiba que está errado e não admita. Na verdade, não percebemos que estamos
- errados", explica ela. A neurocientista pesquisa, há quase 20 anos, como o nosso cérebro reage à chegada de
- novas informações e descobriu que ele não grava tão bem aquelas que vão contra o que acreditamos —
- principalmente quando são negativas. "Há maneiras de saber quais mudanças de atividade cerebral
- deveríamos observar quando você recebe uma informação nova. Conseguimos ver que há menos 'gravação'
- acontecendo quando a informação não é desejável ou é contrária ao que você acredita", explica a
- neurocientista. "Isso ocorre principalmente nas regiões frontais, mas elas estão conectadas a regiões
- subcorticais que estão envolvidas com emoção, motivação, memória etc." E o problema não para por aí.
- _____Só acredita quem quer. Além de literalmente guardar menos os fatos que contrariam nossas crenças,
- nós nem vamos atrás deles, afirma a pesquisadora. "Descobrimos que as pessoas são mais propensas a
- procurar informações desejáveis e mais propensas a acreditar e reforçar suas crenças quando recebem
- informações desejáveis", relata. Sharot e sua equipe conseguiram enxergar, no cérebro, o funcionamento do
- que conhecemos hoje como vieses cognitivos.
- _____Vieses, sempre eles. Há registros de ao menos 120 vieses cognitivos, mas o mais famoso é, sem
- dúvida, o viés de confirmação, segundo o qual procuramos e aceitamos com mais facilidade informações que
- confirmam aquilo em que já acreditamos. "Isso significa que você tem menos chances de encontrar
- informações que vão contra o que você acredita", reforça Sharot. Um teste desenvolvido em 2015, pelo New
- York Times, envergonha muita gente que acredita estar imune ao viés de confirmação. Quando confrontados
- com uma informação que desbanca aquilo em que acreditamos — principalmente numa discussão acalorada
- —, entram em jogo as emoções para ―proteger‖ nossas posições. "Quando estamos tomados por alguma
- emoção forte, fica mais difícil ainda a dialética da conversa, porque as pessoas não estão debatendo ideias, e
- sim paixões", explica Leite, da USP. "Isso fortalece a sua opinião prévia sobre o assunto."
- _____Só sei que nada sei. Outro viés bastante popular para explicar a nossa dificuldade em reconhecer
- uma crença errada é o efeito Dunning-Kruger, lembra Leite. Os dois pesquisadores que dão nome ao efeito
- realizaram, em 1999, um estudo demonstrando que as pessoas que possuem pouco conhecimento sobre um
- assunto costumam ser mais confiantes e acreditam saber mais que a média. Isso se dá porque elas não têm
- conhecimento suficiente para serem capazes de perceberem e admitirem seus próprios erros. Por outro lado,
- aqueles que são gabaritados em determinado tema também têm uma visão distorcida sobre seu próprio nível
- de conhecimento. Essas pessoas acham que os outros estão tão bem informados quanto elas, então tendem
- a subestimar suas habilidades. "Quanto menos formação você tem em um assunto, menos preparo cognitivo,
- mais você acredita piamente na sua opinião sobre ele", resume Leite.
- _____Isso é desculpa para teimosia? Não. A ideia é ter consciência dos vieses comportamentais para
- tentar evitá-los ou, pelo menos, lembrar que todos encaramos os fatos de um ponto de vista bastante pessoal.
- Leite lembra que costumamos debater dentro de bolhas, vendo nossas opiniões amplificadas por discursos
- semelhantes, imaginando que estamos consumindo conteúdo ―novo‖. "A sociedade vem dialogando cada vez
- menos, acho que é uma tendência geral. Cada vez menos pensando no bem comum. Há sempre uma
- primazia da opinião individual, de pequenos grupos, nunca pensando numa perspectiva mais sistemática e
- globalizante", avalia ele.
- _____Impressão minha, ou estamos discutindo mais? O psiquiatra se lembra do sociólogo Zygmunt
- Bauman para defender que as redes sociais amplificam nossa necessidade de expor opiniões online. "A gente
- publiciza nossa vida privada de uma forma nunca antes vista. E essa avalanche de opiniões privadas
- colocadas em público acaba sofrendo manipulações — seja pelos algoritmos ou pela amplificação dos robôs",
- observa Leite. "Isso acaba contagiando muitas pessoas que eventualmente nem tinham uma opinião formada
- sobre o tema, mas é tamanho o bombardeio de mensagens e notícias que muitas vezes supera a capacidade
- do indivíduo de ter um filtro crítico sobre essas informações." Em consequência, todo mundo sente a
- necessidade de opinar — mesmo sem conhecer um assunto a fundo — e, como já vimos antes, ecoar vozes
- semelhantes às suas.
- _____Alguma dica para fazer alguém admitir um erro? "Quando as opiniões são afetivas, refratárias a
- dados, não adianta discutir. É análogo, na psiquiatria, a um paciente que tenha um delírio. Delírio é
- grosseiramente uma ideia irremovível, é uma convicção muito profunda", explica. Tanto o psiquiatra quanto a
- neurocientista afirmam que reabrir um diálogo e diminuir a polarização é um trabalho social conjunto, pois não
- há tipos de personalidades mais suscetíveis à teimosia e à dificuldade em admitir erros. Estamos todos tão
- propensos a isso quanto os que criticamos. A dica, segundo eles, é fazer a sua parte e, ativamente, procurar
- informações contrárias àquilo que você acredita. E estar aberto ao diálogo — mesmo que os assuntos mais
- espinhosos precisem ficar de lado, opina Leite. "Precisa ser um princípio geral encontrar pautas que girem em
- torno do interesse comum. Mas a politização está tão grave que a gente fala em ecologia, por exemplo, que é
- algo do bem comum, e já se fala que é uma pauta de esquerda. Precisamos voltar a procurar identidade entre
- as pessoas. A politização enfraquece muito nosso senso de comunidade."
(POLLO, Luiza. Por que é tão difícil admitir que estamos errados? A psiquiatria explica. TAB Uol, 13 jun. 2020. Com adaptações. Disponível em: <
https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/06/13/como-neurociencia-e-psiquiatria-explicam-nossa-dificuldade-em-admitir-erros.htm>)