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Atenção: O texto abaixo servirá de subsídio para as questões: 1, 2, 3,4:
O dia em que Deus saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou
(Eberth Vêncio)
O mundo subtraíra-se das cores. Tudo era cinza e para-sempre-blue. As flores tinham perdido toda e qualquer fragrância. Os pássaros, coitadinhos, emudeceram. Os arco-íris desenhavam-se no céu tristonho em nuanças de branco-e-preto. As línguas tinham cegado para o lado doce da vida. “La dolce vita” nada mais era do que um filme velho. Os tatos estavam quase todos amortecidos. Os sobreviventes só se permitiam tocar em casos de extrema necessidade, como a luta corporal, o assassinato-à-unha e a cópula. Fazia tempo, ninguém mais fazia amor. Fornicava-se. Desopilava-se. Ao menor sinal de vida pulsando nas entranhas maternas, os embriões distraídos da calamidade vigente naquele mundo extra-útero eram sumariamente cauterizados pelas clavas flamejantes manipuladas por freiras dissidentes da antiga igreja. Para a espécie humana, já não valia mais a pena crescer e se multiplicar. O projeto do Criador para o homem tinha sucumbido. Quem morria com a intenção sumária de se ver livre da arbitrariedade e das atrocidades terrenas, ressuscitava ao terceiro dia e acorria primeiro a tirar satisfações com o Altíssimo, porém, só se deparava com uma impecável túnica branca dependurada sobre o trono celestial e uma placa com os dizeres “Saí para comprar cigarros”.
Ora, Deus não fuma e nunca fumou. Não existe e nunca existiram esquinas no céu. Aos farrapos humanos, as desculpas esfarrapadas. Tão obsoletos quanto a caridade, os livros passaram a ser usados para assar batatas. Vigorava um desprezo descomunal e irreversível pelo arcabouço intelectual das pessoas. Sobrevivia-se das migalhas ancestrais. (...)
A situação no planeta andava abominável desde que os pesquisadores-que-pesquisavam-à-exaustão descobriram, tarde demais, diga-se de passagem, que os magnatas da internet tinham desenvolvido, ocultamente, a par das fronteiras invisíveis da bioética, uns tais feixes luminosos imperceptíveis que eram disparados incontáveis vezes por minuto através das telas dos smartphones, adentrando as retinas dos usuários para, enfim, violar áreas específicas do cérebro humano; primeiro, descerebrando o tecido nervoso são do indivíduo; depois, ativando núcleos, para-núcleos, dobras e reentrâncias secundárias dentro da imensurável massa encefálica, sobretudo, as zonas responsáveis pela maldade.
Fazia muito tempo, era cada um por si e Deus a fumar. A humanidade tinha atingido o grau máximo de perversidade. (...)
Diante de sua estrutura, emprego da linguagem e intenção comunicativa, o texto apresentado pertence a qual dos gêneros textuais expostos abaixo:
piada
crônica
notícia
biografia
conto