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Texto 4 para responder às questões 9 e 10.
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1-------Estava alegre nesse dia, bonita também. Um pouco de
febre também. Por que esse romantismo: um pouco de
febre? Mas a verdade é que tenho mesmo: olhos brilhantes,
4 essa força e essa fraqueza, batidas desordenadas do coração.
Quando a brisa leve, a brisa de verão, batia no seu corpo
todo ele estremecia de frio e calor. E então ela pensava
7 muito rapidamente, sem poder parar de inventar. Sempre a
mesma queda: nem o mal nem a imaginação. No primeiro,
no centro final, a sensação simples e sem adjetivos, tão cega
10 quanto uma pedra rolando. Na imaginação, que só ela tem a
força do mal, apenas a visão engrandecida e transformada:
sob ela a verdade impassível. Mente-se e cai-se na verdade.
13 Mesmo na liberdade, quando escolhia alegre novas veredas,
reconhecia-as depois. Ser livre era seguir-se afinal, e eis de
novo o caminho traçado. Ela só veria o que já possuía dentro
16 de si. Perdido pois o gosto de imaginar. E o dia em que
chorei? – havia certo desejo de mentir também – estudava
matemática e subitamente senti a impossibilidade tremenda
19 e fria do milagre. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem,
isso já é demais. Lembro-me de um estudo cromático de
Bach e perco a inteligência. Ele é frio e puro como gelo, no
22 entanto pode-se dormir sobre ele. Perco a consciência, mas
não importa, encontro a maior serenidade na alucinação. É
curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem,
25 mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer,
porque no momento em que tento falar não só não exprimo
o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no
28 que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é o que
eu sinto mas o que eu digo. Sinto quem sou e a impressão
está alojada na parte alta do cérebro, nos lábios – na língua
31 principalmente –, na superfície dos braços e também
correndo dentro, bem dentro do meu corpo, mas onde, onde
mesmo, eu não sei dizer. Mas sobretudo donde vem essa
34 certeza de estar vivendo? Não, não passo bem. Pois
ninguém se faz essas perguntas e eu... Mas é que basta
silenciar para só enxergar, abaixo de todas as realidades, a
37 única irredutível, a da existência. E abaixo de todas as
dúvidas – o estudo cromático – sei que tudo é perfeito,
porque seguiu de escala a escala o caminho fatal em relação
40 a si mesmo. Nada escapa à perfeição das coisas, é essa a
história de tudo. Mas isso não explica por que eu me
emociono quando Otávio tosse e põe a mão no peito, assim.
43 Ou senão quando fuma, e a cinza cai no seu bigode, sem que
ele note. Ah, piedade é o que sinto então. Piedade é a minha
forma de amor. De ódio e de comunicação. É o que me
46 sustenta contra o mundo, assim como alguém vive pelo
desejo, outro pelo medo. Piedade das coisas que acontecem
sem que eu saiba. Mas estou cansada, apesar de minha
49 alegria de hoje, alegria que não se sabe de onde vem, como
a da manhãzinha de verão. Estou cansada, agora
agudamente! Vamos chorar juntos, baixinho. O mundo rola
52 e em alguma parte há coisas que não conheço. Durmamos
sobre Deus e o mistério, nave quieta e frágil flutuando sobre
54 o mar, eis o sono.
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LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem (recurso eletrônico).
Rio de Janeiro: Rocco Digital, 2019.
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No que concerne às ideias e aos sentidos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.
A alternância entre a primeira e a terceira pessoas do discurso, ao longo do texto, reflete a oscilação da personagem-narradora em sua relação consigo mesma: ora sente-se próxima e dona de si, ora sente-se distante e apartada de si mesma.
Certo
Errado