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Texto para as questões de 1 a 10.
1 ____ A máquina de fotografar mudou a história do olhar
humano. Na sequência, o cinema nos ensinou a ver o
mundo de um modo diferente. A televisão concentrou
4 nosso olhar dentro da pequena tela doméstica, uma espécie
de prisão para os espíritos mais inquietos, um conforto
visual para outros menos preocupados. O computador
7 ajudou a concentrar nossos corpos diante de uma tela com
possibilidades infinitas, ou aparentemente infinitas. Os
tablets hipnotizaram muita gente com a novidade do
10 touchpower. Finalmente, os telefones celulares
concentraram todas essas possibilidades, facilitando a
relação tanto com o mundo visual quanto com o virtual, e,
13 também por isso, passaram a valer como um órgão do corpo
humano.
____ Isso é provado empiricamente no momento em
16 que alguém perde um celular. É como se esse alguém
perdesse o órgão físico que lhe permite conexão com o
mundo. Se alguém ainda especula sobre o “sexto sentido”,
o celular é o mais forte candidato a ocupar o lugar desse
saber além dos sentidos corporais clássicos.
____ Os aparatos técnicos controlam nossa relação com
22 o mundo visual há muito tempo. Desde que o virtual surgiu,
esses aparelhos que conjugam todas essas possibilidades
controlam o todo de nossas percepções. Até aí nada demais.
25 Já sabemos disso. Mas, se sabemos, por que não mudamos
aquilo que já conhecemos e aprendemos a criticar tão bem?
Essa não é uma pergunta retórica, feita apenas por fazer. É
28 uma pergunta que, levada a sério, nos confronta com
nossos próprios limites. Ora, não mudamos nossa relação
com esses objetos porque eles criam hábitos. E não há nada
31 mais forte em nossas vidas do que nossos hábitos. Os
hábitos nos dão segurança e senso de pertencimento, o
conforto do que é conhecido para nós.
34 ____ O que chamamos de consumismo é, na verdade,
um hábito. Não abandonamos os mais diversos produtos
que nos fazem mal ou que fazem mal à natureza ou a
37 alguém, não deixamos de lado o cigarro, as comidas
industrializadas, o carro ou o sedentarismo porque eles têm
a força do hábito. Os hábitos nos dão prazer porque
40 poupam nosso empenho e esforço em uma sociedade que
já exige muito de nossos corpos. E quando entram em cena
os esforços mentais, tudo o que queremos é ser poupados.
43 Somos devotos do deus da inércia. O celular vem a ser uma
parte do ritual desse culto, pois nos poupa empenho e
esforço. E nos dá a sensação de potencialidades abertas. Ele
46 é o melhor exemplo de pequena potencialidade
literalmente ao alcance da mão que nos livra de muitos
desempenhos que seriam sofríveis se tivéssemos que nos
49 esforçar por eles a todo momento. Nós nos regozijamos
com a superficialidade porque, de fato, interpretamos que
ela é o que tem que ser. Somos signatários dessa vida
52 instantânea, imediata, sem densidade. Estamos habituados
à superfície porque não conhecemos nada melhor do que
ela.
Marcia Tiburi. Nós e os aparelhos: sobre hábitos e prazeres na era da automação humana. Internet: <https://revistacult.uol.com.br/> (com adaptações).
Sintática e semanticamente, o pronome “lhe” (linha 17) é equivalente à expressão
nesse alguém.
a esse alguém.
um celular.
com um celular.