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Texto para as questões de 1 a 5.
1--- O homem pobre vai tentar a aventura da meia
----.idade: comprar uma casa. Não é bem uma casa, é um
----.apartamento. Não é bem um apartamento: é um papel
4---riscado em cima de uma mesa.
----- O outro homem explica que aquela planta se
----.multiplica por 12; ele pode escolher o andar; e no andar
7---pode escolher o apartamento. O terreno fica na esquina de
----.tal rua com tal rua. O homem pobre conhece bem aquele
----.terreno, conheceu a casa que havia nele, se lembra quando
10--ela foi derrubada, se lembra do mato que cresceu atrás do
----.muro novo, mas já arrebentado.
----- Ali, naquele terreno baldio, a cujo lado tanta
13--madrugada passou sua melancolia, ele terá um
----.apartamento. Sente-se suspenso no ar sobre aquele capim
----.crescido, escolhendo seu lugar no espaço. Sexto andar,
16--décimo, terceiro?
----- Seria melhor que fosse voltado para leste, para o
----.mar, para o nascente e os ventos salgados. Mas o outro
19--homem é prático: “aqui podem construir outro prédio, você
----.ficará sem mar, nem sol, nem lua, nem vento”.
----- O homem pobre hesita entre o leste e o norte.
22--Aborrece o sol da tarde e o estrondo dos bondes; escolhe o
----.norte: sabe que no inverno terá mais sol que no verão e se
----.sente sábio por saber isso. Afinal detém o dedo moroso na
25--planta: este. “Que andar”? Escolhe o 9.
----. O outro homem fala em documentos, em juros, em
----.amortização. Ele não ouve. Sente uma vaga melancolia, ele
28--que sempre errou pelo mundo, e nunca teve nada de seu:
----.queria árvores, queria o mar. Afinal será localizado em um
----.buraco de cimento que defrontará, do outro lado da rua,
31--outro buraco de cimento.
---- -Assusta-o um pouco, e o lisonjeia, a ideia de ser
----.proprietário, poder dizer: “isto é meu, esta parede é minha,
34--este chão é meu”. Mas reflete que dirá exageradamente:
----.a parede será sua, o piso será seu apenas às meias. E a terra
----.será sua através dessa ficção chamada condomínio: não
37--será dono de nenhum chão do qual poderá dizer “este
----.chão”, mas apenas de uma porcentagem, de uma
----.geometria, de uma metafísica de chão.
40- E de repente lhe vem uma tristeza, ter aquele
----.apartamento: morar nele — morar, dormir, amar, morrer
----.talvez, quem sabe? Mas o apartamento ainda é apenas um
----.risco no papel, um ponto no espaço, uma palavra solta no
----.ar. E de súbito ele muda de ideia: “ainda tem algum vago no
----.décimo segundo”? Sim, escolhe o 12; assim não terá
46--ninguém sobre sua cabeça, não suportará outras tristezas
----.sobre seu ombro cansado, e, quem sabe, poderá ver melhor
----.as nuvens, as nuvens com seu mar, suas árvores, seus carros
49--de glória puxados por esplêndidos cavalos brancos
----.empinados no azul, e mesmo de tarde, uma tarde, quem
----.sabe, o longo e alvo corpo da impossível amada, além.
Rubem Braga. Apartamento. In: Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 1951. Internet: <cronicabrasileira.org.br>.
No terceiro parágrafo do texto, o(a)
emprego da preposição “a”, em “a cujo lado”, deve-se à regência da palavra “lado”.
expressão “a cujo lado” poderia ser reescrita como ao lado do qual, sem prejuízo da coerência textual.
vocábulo “suspenso” se refere a “apartamento”.
trecho “escolhendo seu lugar no espaço” constitui uma oração adverbial reduzida com valor causal.
palavra “crescido” concorda, em gênero e número, com a forma pronominal “ele”.