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VICIADO NO CELULAR
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Walcyr Carrasco
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Um dia percebi que não conseguia ficar sem celular. Um caos. Se estava lendo, dava uma pausa a cada página. Só para dar uma geral no WhatsApp, no Instagram e em todo aplicativo de mensagens existente. Parece impossível. Mas eu li toda obra de Dostoievski conferindo o celular. Se estava escrevendo, de instante em instante ia olhar a telinha. Celular vicia. Tem os efeitos semelhantes aos de uma droga. A abstinência provoca ansiedade. O som de uma chamada descarrega adrenalina. Descobri que era grave em viagens de avião — que, até um tempo relativamente recente, não tinham internet. Espertas, as companhias aéreas agora vendem pacotes. Se estou nas nuvens, ainda posso disparar um "oi, tudo bem" no direct. É um vício tremendo.
Não só meu. Entro em um restaurante e, na maioria absoluta das mesas, vejo gente no celular. Mesmo de frente uma para a outra. Às vezes teclando entre si e rindo. Enviando emojis que seriam divertidos se não tivessem se tornado banais. Simplesmente, as pessoas não vivem sem seu aparelhinho! Estão conectadas o tempo todo. Pior. Quem envia mensagens quer resposta e pronto! Mais ou menos como se eu estivesse na minha casa, alguém entrasse pela porta e exigisse toda atenção. Sem ser convidado. A atitude de quem envia zaps é igual. Se não respondo imediatamente, vem uma pergunta do tipo: "está tudo bem?"; "aconteceu alguma coisa"; "algum problema?". Ei, ei! Quando quero cuidar das minhas coisas é porque estou com problema? Um dia eu descobri que ficara seis horas só trocando mensagens sobre a vida, a saúde etc. Seis horas de papos superficiais!
Existe coisa mais difícil que parar uma conversa no celular? Eu digo que tenho de parar. Vem uma resposta com gancho para outra resposta, de minha parte. Tipo: "mas está tudo bem?" Pior é quando recebo mensagens de voz. Odeio, porque demoro para ouvir. Quando eu digo, "não ouço mensagem de voz", vem a resposta: "quando você puder, você ouve". Há quem mande fotos, vídeos, que eu nunca pedi. Jamais vou escolher alguém para um elenco porque mandou um vídeo no Instagram. Tudo também ganha um caráter de urgência. Querem respostas imediatas, críticas, opiniões! Socorro!
Há semanas, tive uma dor horrível no braço direito. Procurei um profissional. "Você fica muito no celular?" — ele perguntou. "Sim!" Resultado: era o início de uma tendinite. Causada pelo esforço repetitivo. Há um código de etiqueta do celular que ninguém segue. Como não se ofender, se a pessoa diz que está ocupada. Ou não invadir o celular alheio com mensagens de vaquinhas, correntes, pedidos de ajuda. Recebo centenas e mais centenas!
Decidi dar um tempo com o celular, desligando, diariamente. Comecei com duas horas. Já estou indo para três. Sofri uma onda de revolta de amigos insistindo: "por que não responde?". Continuei radical. Se gostam de mim, têm de perceber que não estou sempre à disposição.
PS — Enquanto escrevia este texto, conferi dezoito vezes o celular.
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(Disponível em: https://veja.abril.com.br/blog/walcyr-carrasco/viciado-no-celular/ Acesso em: 15 jul. 2021.)
A ideia expressa pelo articulador sintático está ADEQUADAMENTE indicada pela palavra entre parênteses em:
“Ou não invadir o celular alheio com mensagens de vaquinhas, correntes, pedidos de ajuda." (adição).
“Mas eu li toda obra de Dostoievski conferindo o celular." (adversidade).
Quando quero cuidar das minhas coisas é porque estou com problema? (conclusão).
Se gostam de mim, têm de perceber que não estou sempre à disposição. (conformidade).