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Texto I
Simples assim
Ruy Castro
Quantas vezes você já ouviu hoje alguém dizer pontuar, robusto, assertivo, resiliência e empatia?
1 A todo momento há alguém dizendo na televisão: “Eu só queria pontuar que…”. Apresentadores,
repórteres, comentaristas, entrevistados, todos estão freneticamente querendo pontuar. Ninguém está
a fim de virgular, exclamar, interrogar e muito menos ponto-virgular. Só de pontuar. É uma das
palavras do momento. E, como outras do gênero, desnecessária. Se, em vez de pontuar, a pessoa
5 disser logo aquilo que quer pontuar, sua supressão não fará a menor falta.
Outra mania em curso na praça é “simples assim”. Para mim, o primeiro a usá-la, há mais de 30 anos,
foi Paulo Francis. Era tradução de “that simple” e combinava com o jeito de Francis argumentar. Ele
morreu em 1997 e, por décadas, não ouvi ninguém dizer “simples assim”. Mas, de há algum tempo,
passei a escutá-la no atacado e no varejo — não no sentido original de “não é complicado”, mas no de
10 “Ponto final!”, “Cala a boca!”, (...). O mesmo se aplica à “Vida que segue”, expressão popularizada no
rádio dos anos 60 por João Saldanha. Definia um certo fatalismo, como o singelo “É isso aí”. Hoje é
também sinônimo de “Assunto encerrado!”
Há transmigrações semânticas benignas. “Robusto” é o caso. Até há pouco, designava uma pessoa
forte, rija, maciça. De repente, passou a definir também um conjunto de provas capazes de condenar
15 alguém — “Provas robustas”, dizem os magistrados. (...)
As palavras vão e vêm. Impossível ficar hoje mais de cinco minutos sem ouvir alguém dizer
“assertivo”, “resiliência” e “empatia”. No passado, já foram palavras de 100 dólares e só os
intelectualizados as usavam. Agora saem de graça.
Tudo bem. Temo apenas que, assim como entraram, logo saiam da língua — sem saber por quê.
Fonte: Adaptado por Solda em 17 de janeiro de 2022. Disponível em: https://cartunistasolda.com.br/simples-assim/.
De acordo com o Texto I, responda às questões números de 1 a 9.
Em “Quantas vezes você já ouviu hoje alguém dizer pontuar, robusto, assertivo, resiliência e empatia?”, o autor dirige-se ao leitor com o tratamento “você”. Tal estratégia deflagra:
um desejo de mostrar intimidade com o leitor, já que a escolha pelo tratamento “você” é informal e, em certas situações, desrespeitosa
um recurso que sinaliza dificuldade de se construir argumentos capazes de convencer o leitor acerca do que se pretende apresentar
uma vontade de definir um debate que pode ser realizado por qualquer pessoa, pois não há um ponto de vista defendido
uma intenção de trazer o leitor para mais perto da discussão, por meio de uma suposta interlocução