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O emprego do acento agudo nas palavras “inúmeros” (linha...

Texto para os itens de 1 a 16.


1__A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo

que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas

que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que

4 elas tanto temiam.

__Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para

brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.

7__Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol, e, estremunhada, levaram-me à janela para me

apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessava nada, que nem vencia a preguiça dos

meus olhos, pareceu-me, de repente, maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma

10 noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um

cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo

nenhum.

13__Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha

ficado um pouco triste — mas que importância tem a tristeza das crianças?

Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o

16 mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras

fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.

Dizem que o mundo termina em fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de

19 tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo

sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.

__O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns

22 trabalhassem tanto e outros tão pouco. Porque fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Porque

pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Porque fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos —

além dos particulares. Porque mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que

25 cabe enumerar numa crônica.

__Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da

maneira mais digna.

28__Em muitos pontos da Terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus — dono de todos os mundos — que trate

com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos — segundo

leio — que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.

31__Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de

enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos — insignificantes que somos,

na tremenda grandiosidade total.

34__Ainda há uns dias a reflexão e o arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em

fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês...



Cecília Meireles. O fim do mundo. In: Quatro Vozes, Rio de Janeiro, 1998, p. 73 (com adaptações).


Em relação às ideias e aos aspectos linguísticos do texto, julgue os itens de 1 a 16.

O emprego do acento agudo nas palavras “inúmeros” (linha 16), “próximo” (linha 18) e “hipócritas” (linha 22) justifica-se pelo fato de todas elas serem paroxítonas.


C

Certo


E

Errado