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No segundo parágrafo do texto CG1A1-I, a referência à...

Texto CG1A1-I


Explicações populares sobre os aspectos psicológicos do câncer citam com frequência autoridades antigas, a começar por Galeno, que observou que “mulheres melancólicas” têm mais probabilidade de ter câncer no seio que “mulheres sanguíneas”. Mas os significados mudaram. Galeno (século II) entendia melancolia como uma condição fisiológica com sintomas caracterológicos complexos; nós a entendemos como um mero estado de ânimo. “Desgosto e angústia”, disse o médico inglês Sir Astley Cooper, em 1845, estão entre “as causas mais frequentes” do câncer no seio. Mas as observações do século XIX antes minam do que apoiam a ideia vigente no fim do século XX — ao evocarem um tipo de personalidade maníaca, quase o oposto daquela criatura desesperada, com ódio a si mesma, emocionalmente inerte, a personalidade contemporânea do câncer. Até onde sei, nenhum oncologista convicto da eficiência da quimioterapia e da imunoterapia contribuiu para as ficções acerca de uma personalidade específica do câncer. Nem é preciso dizer que a hipótese de que o sofrimento pode afetar a capacidade imunológica é bem diferente do ponto de vista de que as emoções causam doenças — e não lhe dá nenhum respaldo, muito menos quando se trata da crença de que emoções específicas podem gerar doenças específicas.

A conjectura recente sobre a moderna personalidade típica do câncer tem seu antecedente e sua contrapartida na literatura sobre a tuberculose, na qual a mesma teoria circulou durante largo tempo. Em 1672, Harvey declarou que a “melancolia” e a “cólera” tinham “a mesma causa” da tuberculose. Em 1881, um ano antes de Koch demonstrar que o bacilo da tuberculose era a causa primária da doença, um manual médico de uso corrente apresentava as causas da tuberculose: disposição hereditária, clima desfavorável, vida sedentária em ambiente fechado e “emoções depressivas”. Embora o verbete tenha sido alterado na edição seguinte, levou muito tempo para que tais ideias perdessem a credibilidade. “A doença dos pulmões não passa de um transbordamento da minha doença mental”, escreveu Kafka para Milena, em 1920. Aplicada à tuberculose, a teoria de que as emoções causam doenças sobreviveu até uma fase bem adiantada do século XX — até, por fim, se descobrir como curar a doença. A aplicação corrente e em voga da teoria — que reporta o câncer à retração emocional e à falta de autoconfiança e de confiança no futuro — vai, provavelmente, revelar-se tão pouco defensável quanto sua aplicação à tuberculose.


Susan Sontag. A doença como metáfora. AIDS e suas metáforas.

São Paulo, Cia das Letras, 2007, p. 47-8 (com adaptações).

No segundo parágrafo do texto CG1A1-I, a referência à teoria que circulou em relação à tuberculose evidencia a intenção da autora de


A

refutar a validade da teoria das causas emocionais do câncer.


B

mostrar que os avanços científicos demoram para ganhar ampla aceitação.


C

apontar as semelhanças entre as causas da tuberculose e do câncer.


D

apresentar um histórico da teoria das causas de doenças emocionais.