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Texto 2
Casa de correção
Graciliano Ramos
Fui sentar-me num banco, junto à mesa.
O diretor conversava animado, risonho e
familiar. Tratavam-no por major e pareciam
gostar dele. Nesse ponto José Brasil entrou
5 com dois faxinas, que puseram diante de mim
bules de café, leite e chá, um tabuleiro cheio de
fatias de pão. Surgiu-me de repente a fome:
bebi sôfrego um caneco de leite e comecei a
devorar. Espantava-me o horrível apetite,
10 depois da longa inapetência, e desgostava-me
não conseguir moderá-lo. Portava-me como
selvagem, mastigava sem descontinuar e
envergonhava-me de estar causando
impressão deplorável. Minutos antes as maçãs
15 e os biscoitos provocavam-me repugnância. A
esquisita avidez viera de golpe. Esforçava-me
por inteligência que ainda havia em mim. Bicho
faminto, surdo, mudo. Não me achava
inteiramente cego: via em redor médicos,
20 engenheiros, advogados, jornalistas, oficiais do
exército, gente que, meses atrás, lia e jogava
xadrez no Pavilhão. A ausência de operários
deu-me uma indicação: provavelmente
estávamos na Sala da Capela, destinada a
25 burgueses e intelectuais. Mas por que não
estavam ali Rodolfo Ghioldi, Sérgio, Valério
Konder, os Campos da Paz? Consumi todo o
pão e esvaziei o bule de café. Aí choveram
perguntas, mas, cansado, zonzo, senti
30 preguiça de falar, catar lembranças.
A Colônia ia-se distanciando; a cama, a
esteira, o lençol ensanguentado, a tatuagem de
Gaúcho e os olhos ferozes de Alfeu
confundiam-se. Teriam existido? Afligiu-me
35 reconhecer lacunas em tão pouco tempo,
vacilações na memória. Não me seria possível
reconstituir o galpão, o refeitório, a
generosidade estranha de Cubano, o estertor
do vagabundo na imensa noite.
RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. 43.ed. Vol. II. Rio de
Janeiro: Editora Record, 2006. p. 280-281.
Graciliano Ramos é um dos maiores nomes da literatura brasileira e escreveu “Memórias do cárcere”, publicado postumamente em 1953, acerca do tempo em que foi preso político.
O título “Casa de correção” atua no estabelecimento da coerência textual porque:
encontra sinônimos ao longo do texto.
fixa o campo semântico do texto.
antecipa o ambiente hospitalar em que se situa o texto.
provoca ironia em relação ao conteúdo do texto.
metaforiza o espaço descrito no texto.