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Nos dois últimos versos do poema – “‘Penso em você’ – me...

Leia atentamente o poema Amor, de Adélia Prado, escritora brasileira, para responder às questões de 1 a 5.


Amor


A formosura do teu rosto obriga-me

e não ouso em tua presença

ou à tua simples lembrança

recusar-me ao esmero de permanecer contemplável.

Quisera olhar fixamente a tua cara,

como fazem comigo soldados e choferes de ônibus.

Mas não tenho coragem,

olho só tua mão,

a unha polida olho, olho, olho e é quanto basta

pra alimentar fogo, mel e veneno deste amor incansável

que tudo rói e banha e torna apetecível:

caieiras, desembocaduras de esgotos,

ideia de morte, gripe, vestido, sapatos,

aquela tarde de sábado,

esta que morre agora antes da mesa pacífica:

ovos cozidos, tomates,

fome dos ângulos duros de tua cara de estátua.

Recolho tamancos, flauta, molho de flores, resinas,

rispidez de teu lábio que suporto com dor

e mais retábulos, faca, tudo serve e é estilete,

lâmina encostada em teu peito. Fala.

Fala sem orgulho ou medo

que à força de pensar em mim sonhou comigo

e passou um dia esquisito, o coração em sobressaltos à campainha da porta,

disposto à benignidade, ao ridículo, à doçura. Fala.

Nem é preciso que amor seja a palavra.

“Penso em você” – me diz e estancarei os féretros1,

tão grande é minha paixão.


1 Féretro: caixa longa de madeira em que se enterram os mortos.

Nos dois últimos versos do poema – “‘Penso em você’ – me diz e estancarei os féretros, / tão grande é minha paixão.” –, a expressão “estancarei os féretros” significa:


A

Desistir diante da morte, ou seja, render-se.


B

Deter a morte, ou seja, fazer o impossível


C

Duvidar sobre a morte, ou seja, questionar-se.


D

Aceitar a morte, ou seja, conformar-se.