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Texto I
Na leitura e na escrita do texto literário encontramos o senso de nós mesmos e da comunidade a que pertencemos. A literatura nos diz o que somos e nos incentiva a desejar e a expressar o mundo por nós mesmos. E isso se dá porque a literatura é uma experiência a ser realizada. É mais que um conhecimento a ser reelaborado, ela é a incorporação do outro em mim sem renúncia da minha própria identidade. No exercício da literatura, podemos ser outros, podemos viver com os outros, podemos romper os limites do tempo e do espaço de nossa experiência e, ainda assim, sermos nós mesmos.
COSSON, R. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2016. p. 17.
Texto II
Prefiro as linhas tortas, como Deus. Em menino eu sonhava de ter uma perna mais curta (Só pra poder andar torto). Eu via o velho farmacêutico de tarde, a subir a ladeira do beco, torto e deserto... toc ploc toc ploc. Ele era um destaque. Se eu tivesse uma perna mais curta, todo mundo haveria de olhar para mim: lá vai o menino torto subindo a ladeira do beco toc ploc toc ploc.
Eu seria um destaque. A própria sagração do Eu.
BARROS, M. Livro sobre nada. São Paulo: LeYa, 2013. p. 28.
O poema de Manoel de Barros, Texto II, pode ser usado em sala de aula para promover o exercício da literatura, conforme Rildo Cosson propõe no Texto I. Para tanto, o professor poderia mediar a leitura dos alunos apontando que esse poema:
Constrói a significação de que o caminhar do velho farmacêutico é rápido através de frases curtas.
Demonstra a empatia do eu lírico com um perfil de pessoa comumente marginalizado na sociedade.
Emprega onomatopeias com a finalidade de produzir o efeito de sentido de uma pessoa mancando.
Transgride formas poéticas tradicionais por não possuir divisão em versos e estrofes e esquema de rimas.