INSTRUÇÕES: Leia o texto 1 para responder às questões de 1 a 6
TEXTO 1
TRETA, O MAIOR ENTRETENIMENTO
Por Eduardo Affonso
12/02/2022 00h07 Atualizado 06/07/2022
- Paulo Leminski escreveu que o amor era a matéria-prima que a vida transformava em raiva — ou em
- rima. O poeta não viveu para ver a raiva ser o insumo do mundo virtual, que se encarrega de convertê-la em
- combustível do sucesso — e em sonho de consumo.
- É ela que faz girar esse universo paralelo. Que determina os trending topics. Que pauta o algoritmo, sob
- a alcunha de “engajamento”. Quanto mais raiva, mais curtidas, mais compartilhamentos, mais seguidores,
- mais audiência nos podiquestes — e mais faturamento.
- Não é de hoje que a turba quer ver sangue. Era assim no Coliseu, nas rinhas de galo, na saída da escola.
- A diferença é que, em algum momento, o sangue parava de escorrer, alguém apartava a briga ou dava a
- hora de ir pra casa. Na internet, sem se levantar da poltrona, é possível linchar e não sujar as mãos ou o
- uniforme, e nem ter que se dar ao trabalho de recolher os despojos — dos galos, do colega mais fraco, dos
- cristãos. A arena funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana, numa profusão de plataformas.
- O zé-das-couves do twiter não está minimamente interessado em discutir os limites da liberdade de
- expressão. Não lhe importa a distinção entre debate e bate-boca, apologia e incitação; entre a ideologia
- genocida que virou paradigma do mal e outras ideologias genocidas que passaram por um reposicionamento
- no mercado. Ele quer é ver o circo pegar fogo — e assume o papel do palhaço que cospe labareda. Quer
- manipular (a seu favor) a desinformação e surfar na treta que há de se instalar quando alguém sem preparo
- algum desandar a despejar opinião diante de um milhão de espíritos à espreita de um vacilo.
- A treta não é só mentira ou confusão, mas oportunidade de capitalizar o erro alheio. É uma polêmica
- com fins lucrativos (galga-se mais um degrau na hierarquia da tribo). O tipo de contenda em que, quanto
- mais baixo, mais válido é o golpe. Quando o oponente cai, aí é que é a hora de chutá-lo com gosto. Não há
- lugar para o contraditório, a retratação, a tréplica, o convencimento, o mea-culpa. Vem com todos os
- agravantes e sem atenuante nenhum. E o linchamento, físico ou virtual, sempre foi uma espécie de
- espetáculo em que o linchador, palmatória do mundo, exibe em todo seu esplendor as plumagens da própria
- virtude.
- Ter opinião racista é crime? É. Defender discurso de ódio? Também, porque fere as garantias e direitos
- fundamentais do cidadão. Isso vai contra a liberdade de expressão? Não. Como disse a deputada Tabata
- Amaral, esta “termina onde a sua expressão coloca em risco a vida do outro”. E esse é o tipo de questão que
- se resolve com argumentos límpidos, serenos. Com demissão, se o infrator for um caso perdido. Com
- ajustamento de conduta, se houver esperança de redenção.
- Mas a treta não se presta a refutar uma ideia, e sim, a aniquilar quem a manifesta. Seu alvo não é a
- mensagem, mas o mensageiro — que é exposto à execração, à condenação midiática e, se possível, ao
- ostracismo digital. A internet é um palco onde a treta virou entretenimento. Onde a raiva é a maior diversão.
Disponível em: https://oglobo.globo.com/opiniao/eduardo-affonso/post/2022/02/treta-o-maior-entretenimento.ghtml. Acesso em: 25/02/2023.