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Assinale a alternativa na qual a supressão do acento...

Comecei a nadar

Por Adriana Antunes

01 Há dias tenho pensado sobre o correr do tempo. Talvez há tempos. Esse tempo que nos

02 atravessa feito ventania sem nos dar espaço para parar um pouco. Todos, tenho certeza, já

03 desejamos poder segurar as horas, prender os minutos. Um desejo de espi__ar momentos, pois

04 nossa memória não é lá muito elástica. Quem nunca desejou conseguir prolongar o último

05 abraço, o último adeus, o último sorriso. Afinal, só nos damos conta de que o tempo corre

06 quando ele cruza por nós e nos deixa para trás. Há talvez a necessidade de uma compreensão na

07 inversão dos fatos. Explico: não somos nós que vivemos a vida, mas a vida que vive através de

08 nós. Havia vida antes de estarmos aqui. ... vidas depois de não estarmos mais aqui. A vida segue

09 e seguirá seu curso. Daí nos damos conta de que ser quem somos no correr do tempo é uma

10 fatalidade. Poderíamos ser diferente do que somos? Não sei, não sei. Sei que somos um

11 amontoadinho, assim no minúsculo mesmo, de horas finitas. Eis a marca do possível em nós. Por

12 isso, penso também, ser quem somos não é uma finalidade, como se em algum momento

13 tivéssemos de apresentar resultados. Não somos máquinas.

14 Enquanto escrevo essa crônica, ouço o riso de uma criança que me chega pela janela. É

15 domingo, fim da tarde e acabo por sorrir também. Estamos vivendo o instante. Talvez a única

16 instância possível de se viver de fato. O passado, além de ter passado, fica aos poucos, borrado,

17 sem contorno. E quanto mais a infância fica distante, mais o tempo passou por nós. Mais nos

18 afastamos do começo. Do futuro nada sabemos. Mas quanto mais corremos, mais nos

19 aproximamos dele e no fim dele, há o fim.

20 Há alguns meses tomei coragem e comecei a nadar. Pela manhã, bem cedo, tomo

21 coragem, coloco o maiô, a touca, os óculos e me jogo na piscina. Demorei a abrir os olhos,

22 mesmo usando óculos, um medo infantil. Muitos medos. Agora, lá embaixo, no silêncio, tudo fica

23 num verde água. Puro instante. Redescubro minha respiração. Descubro que não sei respirar.

24 Percebo que passei uma vida inteira respirando num ritmo que não é o meu. Quantas e quantas

25 vezes respiramos na velocidade do outro e as angústias, os desafetos, as necessidades, as

26 raivas, as ansiedades do outro. Mergulho e penso no meu pai. Semana passada fez um ano que

27 ele morreu. Meu pai que tinha um coração fraco e água nos pulmões. Já vivia mergulhado em si

28 sem conseguir respirar direito, e, pior, não sabia nadar. Dou braçadas na água como quem

29 deseja abraçar o próprio tempo. Descubro que preciso me redescobrir, compreender e aceitar

30 meu ritmo que é diferente do da instrutora, que é diferente do das pessoas que fazem a aula na

31 mesma hora. Nadar traz uma consciência das coisas. Quando respiramos, percebemos que

32 estamos vivos e que tudo é instante. Aí o gerúndio fica perfeitamente belo e aceitável, pois só se

33 vive, vivendo, porque a vida quer nos viver. Sejamos uma boa casa para ela e respiremos o

34 agora, que é de fato, o único instante que temos.

(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/adriana-antunes/noticia/2023/03/comeceia-nadar – texto adaptado especialmente para esta prova).


Assinale a alternativa na qual a supressão do acento gráfico geraria palavra INEXISTENTE em Língua Portuguesa.


A

Máquinas.


B

Nós.


C

Angústias.


D

Trás.


E

Dá.