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Texto 3A4-I
Rios sem discurso
Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.
João Cabral de Melo Neto. A educação pela pedra.
In: Obra completa: volume único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 350-1.
No texto 3A4-I, o poeta João Cabral explora a plurissignificação das palavras para construir um poema metalinguístico. Considerando esse recurso, assinale a opção correta.
O emprego de palavras e expressões do campo semântico da água — como “rio”, “poço(s)”, “fio de água”, “cheia” — e do campo semântico da comunicação humana — como “discurso”, “palavra”, “dicionária”, “sintaxe”, “grandiloquência” — busca marcar uma relação de oposição entre homem e natureza, que remete ao tema da preservação dos recursos naturais.
Na primeira estrofe, cria-se a imagem sugestiva do rio-discurso que se desfaz por causa da seca. Na segunda estrofe, apresenta-se a dificuldade do restabelecimento do curso normal de um rio nordestino que só volta a ser o mesmo rio se contar com uma “cheia” (v.17); em contraste com a facilidade do restabelecimento do discurso que volta a sua “grandiloquência” (v.17) de sempre “em frases curtas, / então frase e frase, / até a sentença-rio do discurso único”.
As palavras “curso” e “discurso” são aproximadas, no poema, por expressarem a ideia de continuidade: assim como o “curso” do rio é contínuo, o “discurso” da comunicação só é efetivado em fluxo.
A expressão “água paralítica” encontra paralelo na expressão “água em situação dicionária” para representar a falta de sentido das palavras eruditas que deixaram de fazer parte da comunicação dinâmica e atual.
Na primeira estrofe, faz-se referência a resultados de ações que geram interrupções no curso de água de um rio, como “cortado” (v.3), “isolada” (v.7), “estancada” (v.8). Esses desfechos de ações reduzem o rio a um “fio de água” (v.12), mas ele continua seu fluxo. Em contraposição, o discurso humano, que faz paralelo ao curso do rio, ao ser interrompido, deixa de existir e se torna palavra “muda” (v. 9 e 10) porque não existe fora das relações da sintaxe.