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Texto 42A2-II
Cunhantã
Vinha do Pará.
Chamava Siquê.
Quatro anos. Escurinha. O riso gutural da raça.
Piá branca nenhuma corria mais do que ela.
Tinha uma cicatriz no meio da testa:
― Que foi isto, Siquê?
Com voz de detrás da garganta, a boquinha tuíra:
― Minha mãe (a madrasta) estava costurando
Disse vai ver se tem fogo
Eu soprei eu soprei eu soprei não vi fogo
Aí ela se levantou e esfregou com minha cabeça na brasa
Riu, riu, riu
Uêrêquitáua.
O ventilador era a coisa que roda.
Quando se machucava, dizia: Ai Zizus!
Manuel Bandeira. Libertinagem. In: Manuel Bandeira: poesia completa e prosa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1990, p. 216.
Vocabulário:
cunhantã – (tupi-guarani) menina, moça.
piá – menino(a) mestiço(a) de indígena com branco.
tuíra – de cor indefinida, preto desbotado, pardo.
Tendo em vista que os poetas do Modernismo brasileiro se encarregaram da desconstrução dos mitos do passado para a construção de um nacionalismo crítico, com uma visão consciente e aprofundada da realidade na poesia brasileira, assinale a opção correta relativamente à representação literária do indígena no texto 42A2-II.
A caracterização da menina indígena resulta do contraste entre a ingenuidade e a alegria espontânea da criança e sua condição de vítima do racismo e dos maus-tratos familiares.
O tema central do poema é a denúncia da violência praticada contra crianças indígenas na região Norte do país.
Por meio da ironia, o poema denuncia o preconceito racial contra os indígenas, uma vez que a menina é caracterizada pela inferioridade física e pela dificuldade de expressão no convívio social de um meio urbano.
Com um toque de humor, o poema faz a crítica dos indígenas que abandonam sua língua e seus costumes para se adaptarem à cultura dos brancos.
A condição do indígena na sociedade brasileira é retratada no poema de forma lírica, sendo demonstrada sua superioridade moral e cultural em relação aos brancos, representados pela referência a “piá branca” (v. 4).