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Texto I
Solidários na porta
Vivemos a civilização do automóvel, mas atrás do volante de um carro o homem se comporta como se ainda estivesse nas cavernas. Antes da roda. Luta com o seu semelhante pelo espaço na rua como se fosse o último mamute. Usando as mesmas táticas de intimidação, apenas buzinando em vez de rosnar ou rosnando em vez de morder.
O trânsito em qualquer grande cidade do mundo é uma metáfora para a vida competitiva que a gente leva, cada um dentro do seu próprio pequeno mundo de metal tentando levar vantagem sobre o outro, ou pelo menos tentando não se deixar intimidar. E provando que não há nada menos civilizado que a civilização.
Mas há uma exceção. Uma pequena clareira de solidariedade na jângal. É a porta aberta. Quando o carro ao seu lado emparelha com o seu e alguém põe a cabeça para fora, você se prepara para o pior. Prepara a resposta. “É a sua!”
Mas você pode ter uma surpresa.
- Porta aberta!
- O quê?
Você custa a acreditar que nem você nem ninguém da sua família está sendo xingado. Mas não, o inimigo está sinceramente preocupado com a possibilidade da porta se abrir e você cair do carro. A porta aberta determina uma espécie de trégua tácita. Todos a apontam. Vão atrás, buzinando freneticamente, se por acaso você não ouviu o primeiro aviso. “Olha a porta aberta!” É como um código de honra, um intervalo nas hostilidades. Se a porta se abrir e você cair mesmo na rua, aí passam por cima. Mas avisaram.
Quer dizer, ainda não voltamos ao estado animal.
(Luís Fernando Veríssimo. In: O suicida e o computador. Porto Alegre: L&PM, 1992.)
Texto II

(Disponível em: https://www.motonline.com.br/noticia/gibi-da-turma-da-monica-em-prol-da-seguranca-no-transito/. Acesso em: 17/12/2023.)
Já declarou Luís Fernando Veríssimo, autor do texto I, que “escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo”. Se alinhada em conformidade com os paradigmas linguísticos e gramaticais vigentes na contemporaneidade, a reprodução acima de seu texto apresenta alguns desvios do padrão normativo da língua portuguesa, provavelmente de modo a retratar a fala em seu contexto corriqueiro, característica de crônicas. Isso se pode constatar nas alternativas a seguir, em que se propõem reescritas de trechos retirados do texto. Assinale a única que apresenta uma reescrita e uma justificativa desnecessárias, uma vez que sua reprodução no texto original já está adequada aos padrões normativos da língua.
“Uma pequena clareira de solidariedade na jângal.” (3º§) deve ser reescrito como “uma pequena clareira de solidariedade no jângal”, uma vez que “jângal” é substantivo masculino.
“[...] você não ouviu o primeiro aviso. ‘Olha a porta aberta!’” (7º§) deve ser reescrito como “[...] você não ouviu o primeiro aviso. ‘Olhe a porta aberta!’”, de modo que o verbo “olhar” concorde com o pronome “você” no modo imperativo.
“‘É a sua!’” (3º§) deve ser reescrito com aspas duplas em vez de aspas simples (desconsidere as aspas duplas para a reprodução nesta alternativa), pois reproduz no texto uma única citação, sem abrir uma citação dentro de outra, para o que as aspas simples são usadas.
“Luta com o seu semelhante pelo espaço na rua como se fosse o último mamute.” (1º§) pode ser reescrito como “Luta com o seu semelhante pelo espaço na rua como se era o último mamute”, pois o fato hipotético da comparação entre homem e mamute é demonstrado pelo modo indicativo do verbo na reescrita, e não pelo modo subjuntivo no texto original.