Não gosto nem de festa surpresa, imagine de emboscadas ambientais
Por Martha Medeiros
- ................... eu e Claudia Tajes, minha vizinha de página, sentadas na plateia do teatro
- Renascença, em Porto Alegre, assistindo a Sangue e Pudins, do Luciano Alabar-se. Do meio para
- o fim do espetáculo, o barulho da chuva se intensificou de forma a nos iludir que era um recurso
- _______ – parecia que em instantes a água deslizaria pelas paredes e entre as poltronas.
- Faltando 10 minutos para acabar, a iluminação se foi e os atores terminaram a _______ no
- escuro.
- Saímos correndo, nem cumprimentamos Luciano. O saguão do teatro era uma piscina –
- chovia lá dentro. Eu só queria pegar meu carro no estacionamento e voar para casa, minha filha
- estava sozinha, sem luz, e já .................. mandado mensagens preocupantes sobre o vento e
- a chuva anormais. Outros motoristas que estavam na plateia não se animaram a atravessar o
- lago que havia se formado na rua, eu dei a partida e fui em frente com o meu otimismo.
- Cem metros adiante, tudo parado. Congestionamento e blecaute, só enxergávamos os
- faróis de outros carros igualmente encurralados. Sinaleiras apagadas. O Arroio Dilúvio, que
- margeia a Avenida Ipiranga, apresentava um volume crescente, quase invadindo o asfalto.
- Precisávamos sair dali.
- Claudia foi meu segundo par de olhos, meu segundo par de braços. Eu, sozinha atrás do
- volante, não dava conta. Abrimos as janelas, pedimos passagem, mas era difícil contar com a
- boa vontade de quem também estava em apuros. As dúvidas transbordavam: seguimos reto?
- Dobramos? Por fim, alcançamos a Av. Princesa Isabel e, claro, muita água na pista nos
- aguardava.
- Nunca senti tanto medo. Minha boca secou. Sabe aquela pessoa que reage com calma na
- hora do pânico? Não sou eu. Fico apatetada, volto a ser criança, quero um pai em meio a uma
- tempestade. Mas estávamos órfãs naquela terça à noite, enquanto árvores desabavam ao nosso
- redor, arrastando os fios de energia. A cada vez que atravessava um alagamento, com água
- batendo na porta, eu implorava ao carro: não apaga, não apaga. Quando passamos em frente a
- um hotel, nem foi preciso entrar em acordo. Era uma ilha. Claudia e eu dividimos a mesma cama,
- ainda no escuro, depois de consumirmos todas as garrafinhas d’água do frigobar. Às seis da
- manhã, voltamos cada uma para sua casa.
- Essa é uma história de terror com final feliz. Mas até quando? A natureza anda mal-
- humorada, com razão. Vai acontecer de novo. Em Porto Alegre, Rio, BH, São Paulo, Belém. Que
- os governantes sejam previdentes e tomem decisões que beneficiem o bem-estar da população,
- em vez de _______ terceiros, lucros ou eleições. E que eu aprenda a desenvolver meu sangue
- frio. Não gosto nem de festa surpresa, imagine de emboscadas ambientais. Nunca estou
- preparada. Alguém está?
- Prefeituras ........... que estar.
(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br – texto adaptado especialmente para esta prova).