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Uma pessoa como outra qualquer
Por Martha Medeiros
01 “Você pode ser um presidente, pode ser o que for, mas sempre será uma pessoa como
02 outra qualquer”, diz Pepe Mujica no excelente livro O Horizonte, que reproduz quatro longas
03 conversas entre ele e Julio Sanguinetti, também ex-governante do Uruguai.
04 Sei, é uma obviedade, não merece um “extra! extra!”. Entre mim e Julia Roberts, por
05 exemplo, a diferença é apenas alguns milhões no banco e um rostinho bonito (não preciso dizer
06 a favor de quem). No mais, somos duas mulheres que trabalham, têm filhos, se angustiam, se
07 divertem, se atrapalham, envelhecem, resmungam e refletem sobre o sentido da vida. Existe
08 alguma grande diferença entre mim e ela, e entre nós todos?
09 Pareço forçar a barra ao destacar uma frase banal como se fosse uma descoberta
10 bombástica, mas o fato é que as pessoas esqueceram mesmo desse pequeno detalhe: somos
11 todos insignificantes, poeira cósmica. Não há razão para se apresentar aos outros dando palestra
12 sobre os próprios feitos. A quem considera que temos alguma especificidade e nos elogia
13 publicamente, agradecemos, muito obrigada, mas é reconhecendo o que há de mundano em nós
14 que minimizamos o _______ de se achar mais e melhor que os outros.
15 Não é preciso ser tão franciscano como Mujica, que se isolou num sítio e dirige um
16 fusquinha. Somos todos frutos da sociedade de consumo e da era digital. Satisfazemos nossas
17 necessidades, não só as básicas, mas também as supérfluas, e procuramos fugir da invisibilidade,
18 valorizando nosso trabalho a fim de vendê-lo, óbvio, e reafirmando nossa identidade de tempos
19 em tempos, seja através do convívio social ou de postagens virtuais. O que nos falta, então?
20 Moderação.
21 Perdeu-se o senso crítico. Estamos em meio a um massacre egoico. “Eu sou mais eu”, “eu
22 posso tudo”, “eu sou gostosa”, “eu sou fodão”, declarados em caixa alta por pessoas
23 independentes e empoderadas, que, por um lado, ajudam outras pessoas a reconhecerem o
24 próprio valor. No entanto, a vaidade excessiva encobre frustrações e faz um barulho estridente.
25 Conexões silenciosas surtem mais efeito. O silêncio da respiração, da escuta, da leitura. O
26 silêncio da meditação, da reza, do mantra, da humildade. A suavidade da voz que pergunta mais
27 do que responde, que incentiva mais do que critica. O som da música, o som das folhas nas
28 árvores e da correnteza do rio, o som camuflado dos suspiros. O som da paz, em detrimento dos
29 _______. É outro tipo de vaidade: satisfazer-se com o eu mínimo, que é enorme. Credenciais,
30 cargos, títulos e prêmios são penduricalhos, _______ que chamam a atenção para o lado de fora
31 de nós. Atraem, mas não nos diferenciam.
32 Extra, extra! Pessoas como outras quaisquer, é o que somos. Sem motivo para entrar em
33 pânico: ainda assim, continuamos únicos.
(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br/ – texto adaptado especialmente para esta prova).
No trecho “eu posso tudo”, a palavra sublinhada é:
Adjunto adnominal do sujeito.
Complemento verbal.
Núcleo do sujeito.
Objeto indireto.
Verbo transitivo direto.