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A partir da leitura dos textos V e VI, percebe-se que há...

Os textos abaixo são bases para responder a questão 54.


Texto V


Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. [...] O mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa. O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde, mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. [...]


(ASSIS. Machado de. Dom Casmurro. 32. ed. São Paulo: Ática. 1997. p. 14. (Fragmento).


Texto VI


Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. [...]

[...] No confuso rumor que se formava, destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber onde, grasnar de marrecos, cantar de galos, cacarejar de galinhas. [...]

Daí a pouco, em volta das bicas era um zum-zum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão. [...]


(AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. 26. ed. São Paulo: Ática, 1994. p. 35-36). (Fragmento).

A partir da leitura dos textos V e VI, percebe-se que há entre eles certa distinção que os situa entre as estéticas Realista e Naturalista. Aliás, essa dicotomia se coloca, em muitos casos, como um dos problemas apresentados na discussão teórica da historiografia literária. Mesmo assim, nota-se que há uma necessidade comum entre elas, aproximando-as, pois ambas possuem uma espécie de comprometimento com o real, mas que assume formas distintas, pois:


A

Como desdobramento de um período de desenvolvimento industrial, com uma maior “depuração das classes sociais”, as correntes de pensamento associam-se. Contudo, os resquícios de um romantismo saudosista descomprometem a arte e o artista com a realidade circundante.


B

Para o romancista Realista, a observação do narrador deve centrar-se na ação do personagem, e, principalmente, na sua particularidade. Ao buscá-la, através da descrição, visa encontrar os mecanismos essenciais para o entendimento das ações e intenções dele.


C

No Naturalismo, o real não está na dimensão da experimentação, mas na captação máxima da descrição. Os elementos que compõem o fenômeno apresentado encontram-se na ideia de que os mecanismos exteriores cobrem muito pouco qualquer possibilidade de intervenção transformadora do personagem.


D

Por concebê-lo como um experimento, o escritor naturalista enveredará para a concepção de romance social, daí muitas vezes uma espécie de didatismo que parece haver em obras deste tipo.


E

A preocupação com o social e a crítica (intenção inicial) assumem no Naturalismo a dimensão profunda da apresentação de personagens e situações episódicas, com possibilidade de subjetividade e imobilismo.