Tenho pânico de aranha
Por Tríssia Ordovás Sartori
- Noite dessas, fui guardar toalhas no banheiro que menos uso no meu apartamento e
- percebi que havia uma sombra dentro do box. Aproximei-me e vi que se tratava de uma aranha
- — aquelas marrons, com pernas fininhas e enormes — parada na junção do revestimento
- cerâmico de tijolinhos brancos, o que a destacava. Meu impulso me tirou dali. Tenho pânico de
- aranha.
- O pensamento seguinte foi de que não poderia perder o bicho de vista, sob pena de
- precisar me mudar (sou dessas. Risos). Corri para a área de serviço e peguei um inseticida
- superpotente, a fim de resolver a situação. Ao voltar ao cômodo, no entanto, me dei conta de
- que precisaria abrir a porta do box, torcer para a aranha não pular em mim ou fazer movimentos
- bruscos e ainda assim acionar o spray. Respirei algumas vezes até sair da inércia e, com muito
- cuidado, movimentei lentamente a porta de vidro para frente. Abri uma fresta apenas para
- minha mão passar e comecei a apertar o spray. Logo uma nuvem intoxicante espalhou-se pelo
- banheiro e eu não conseguia parar de usar o inseticida.
- Quando me dei conta, estava tossindo e com os batimentos cardíacos a_elerados. A
- aranha já estava zonza. Saí de lá até recuperar o fôlego. Por fim, tinha conseguido, mas ainda
- estava assustada. Como uma criança descobrindo habilidades, liguei para minha mãe e contei
- o que tinha feito. Ela, que sabe da minha dificuldade de lidar com aranhas até em fotografias,
- ficou feliz em saber que fiz algo “muito de_afiador”.
- Se contasse a mesma história para alguém que não me conhece tanto, provavelmente
- ouviria: legal, mas por que não pisou em cima? Isso seria absolutamente simples — e_eto pelo
- fato de eu mal conseguir me aproximar do bicho. Mas aí não dá para saber, né?
- Esse preâmbulo todo é exatamente para dizer isso: a gente não pode medir o sentimento
- alheio. Quantas vezes alguém se aproximou, contou de uma dificuldade que está passando e
- ouviu algo como “supera, és melhor do que isso”. E, no fim, a pessoa nem queria conselho, só
- queria ser acolhida.
- Quem consegue sentir o tamanho da dor do outro — dos que partem, dos que ficam?
- Seria menos complicado se nem tentássemos entender aquilo que foge da nossa compreensão.
- O poeta Manoel de Barros versou que “Aquele/ Que não morou nunca em seus próprios abismos/
- Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas/ Não foi marcado. Não será exposto/ Às
- fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema”.
- Eu, como a lírica que sou, torço para que a gente consiga respeitar dores que não são
- nossas, sem curiosidades mórbidas ou desconfianças. Que saiba acolher, que sinta junto. Que
- celebre as boas lembranças, que ajude a construir as próximas. E que deixe um pouco da melhor
- versão de si em cada pequena interação. “A vida não é o que a gente viveu, e sim o que se
- lembra e como se lembra para contá-lo”. A frase não é minha, é do Gabriel García Márquez,
- mas sintetiza uma das minhas crenças: que devemos ser generosos com as histórias (e
- memórias!) alheias.
(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/trissia-ordovas-sartori/noticia/2024/03/tenho-panico-de-aranha.html – texto adaptado especialmente para esta prova).