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Considerando o fragmento “A aranha já estava zonza”...

Tenho pânico de aranha


Por Tríssia Ordovás Sartori


  1. Noite dessas, fui guardar toalhas no banheiro que menos uso no meu apartamento e
  2. percebi que havia uma sombra dentro do box. Aproximei-me e vi que se tratava de uma aranha
  3. — aquelas marrons, com pernas fininhas e enormes — parada na junção do revestimento
  4. cerâmico de tijolinhos brancos, o que a destacava. Meu impulso me tirou dali. Tenho pânico de
  5. aranha.
  6. O pensamento seguinte foi de que não poderia perder o bicho de vista, sob pena de
  7. precisar me mudar (sou dessas. Risos). Corri para a área de serviço e peguei um inseticida
  8. superpotente, a fim de resolver a situação. Ao voltar ao cômodo, no entanto, me dei conta de
  9. que precisaria abrir a porta do box, torcer para a aranha não pular em mim ou fazer movimentos
  10. bruscos e ainda assim acionar o spray. Respirei algumas vezes até sair da inércia e, com muito
  11. cuidado, movimentei lentamente a porta de vidro para frente. Abri uma fresta apenas para
  12. minha mão passar e comecei a apertar o spray. Logo uma nuvem intoxicante espalhou-se pelo
  13. banheiro e eu não conseguia parar de usar o inseticida.
  14. Quando me dei conta, estava tossindo e com os batimentos cardíacos a_elerados. A
  15. aranha já estava zonza. Saí de lá até recuperar o fôlego. Por fim, tinha conseguido, mas ainda
  16. estava assustada. Como uma criança descobrindo habilidades, liguei para minha mãe e contei
  17. o que tinha feito. Ela, que sabe da minha dificuldade de lidar com aranhas até em fotografias,
  18. ficou feliz em saber que fiz algo “muito de_afiador”.
  19. Se contasse a mesma história para alguém que não me conhece tanto, provavelmente
  20. ouviria: legal, mas por que não pisou em cima? Isso seria absolutamente simples — e_eto pelo
  21. fato de eu mal conseguir me aproximar do bicho. Mas aí não dá para saber, né?
  22. Esse preâmbulo todo é exatamente para dizer isso: a gente não pode medir o sentimento
  23. alheio. Quantas vezes alguém se aproximou, contou de uma dificuldade que está passando e
  24. ouviu algo como “supera, és melhor do que isso”. E, no fim, a pessoa nem queria conselho, só
  25. queria ser acolhida.
  26. Quem consegue sentir o tamanho da dor do outro — dos que partem, dos que ficam?
  27. Seria menos complicado se nem tentássemos entender aquilo que foge da nossa compreensão.
  28. O poeta Manoel de Barros versou que “Aquele/ Que não morou nunca em seus próprios abismos/
  29. Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas/ Não foi marcado. Não será exposto/ Às
  30. fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema”.
  31. Eu, como a lírica que sou, torço para que a gente consiga respeitar dores que não são
  32. nossas, sem curiosidades mórbidas ou desconfianças. Que saiba acolher, que sinta junto. Que
  33. celebre as boas lembranças, que ajude a construir as próximas. E que deixe um pouco da melhor
  34. versão de si em cada pequena interação. “A vida não é o que a gente viveu, e sim o que se
  35. lembra e como se lembra para contá-lo”. A frase não é minha, é do Gabriel García Márquez,
  36. mas sintetiza uma das minhas crenças: que devemos ser generosos com as histórias (e
  37. memórias!) alheias.


(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/trissia-ordovas-sartori/noticia/2024/03/tenho-panico-de-aranha.html – texto adaptado especialmente para esta prova).

Considerando o fragmento “A aranha já estava zonza”, assinale a alternativa que apresenta a correta classificação do sujeito.


A

Simples.


B

Composto.


C

Oculto.


D

Indeterminado.


E

Oração sem sujeito.