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No trecho “Perguntaram-me uma vez qual fora o primeiro...

Texto I

O primeiro livro de cada uma das minhas vidas


Clarice Lispector


01 Perguntaram-me uma vez qual fora o

02 primeiro livro de minha vida. Prefiro falar do

03 primeiro livro de cada uma de minhas vidas. Busco

04 na memória e tenho a sensação quase física nas

05 mãos ao segurar aquela preciosidade: um livro

06 fininho que contava a história do patinho feio e da

07 lâmpada de Aladim. Eu lia e relia as duas histórias,

08 criança não tem disso de só ler uma vez; criança

09 quase aprende de cor e, mesmo quase sabendo de

10 cor, relê com muito da excitação da primeira vez. A

11 história do patinho que era feio no meio dos outros

12 bonitos, mas quando cresceu revelou o mistério: ele

13 não era pato e sim um belo cisne. Essa história me

14 fez meditar muito, e identifiquei-me com o

15 sofrimento do patinho feio – quem sabe se eu era

16 um cisne?

17 Quanto a Aladim, soltava minha imaginação

18 para as lonjuras do impossível a que eu era crédula:

19 o impossível naquela época estava ao meu alcance.

20 A ideia do gênio que dizia: pede de mim o que

21 quiseres, sou teu servo – isso me fazia cair em

22 devaneio. Quieta no meu canto, eu pensava se

23 algum dia um gênio me diria: “Pede de mim o que

24 quiseres.” Mas, desde então, revelava-se que sou

25 daqueles que têm que usar os próprios recursos

26 para ter o que querem, quando conseguem.

27 Tive várias vidas. Em outra de minhas vidas,

28 o meu livro sagrado foi emprestado porque era

29 muito caro: Reinações de Narizinho. Já contei o

30 sacrifício de humilhações e perseveranças pelo qual

31 passei, pois, já pronta para ler Monteiro Lobato, o

32 livro grosso pertencia a uma menina cujo pai tinha

33 uma livraria. A menina gorda e muito sardenta se

34 vingara tornando-se sádica e, ao descobrir o que

35 valeria para mim ler aquele livro, fez um jogo de

36 “amanhã venha em casa que eu te empresto”.

37 Quando eu ia, com o coração literalmente batendo

38 de alegria, ela me dizia: “Hoje não posso emprestar,

39 venha amanhã”. Depois de cerca de um mês de

40 venha amanhã, o que eu, embora altiva que era,

41 recebia com humildade para que a menina não me

42 cortasse de vez a esperança, a mãe daquele

43 primeiro monstrinho de minha vida notou o que se

44 passava e, um pouco horrorizada com a própria

45 filha, deu-lhe ordens para que naquele mesmo

46 momento me fosse emprestado o livro. Não o li de

47 uma vez: li aos poucos, algumas páginas de cada vez

48 para não gastar. Acho que foi o livro que me deu

49 mais alegria naquela vida.

50 Em outra vida que tive, eu era sócia de uma

51 biblioteca popular de aluguel. Sem guia, escolhia os

52 livros pelo título. E eis que escolhi um dia um livro

53 chamado O lobo da estepe, de Herman Hesse. O

54 título me agradou, pensei tratar-se de um livro de

55 aventuras tipo Jack London. O livro, que li cada vez

56 mais deslumbrada, era de aventura, sim, mas outras

57 aventuras. E eu, que já escrevia pequenos contos,

58 dos 13 aos 14 anos fui germinada por Herman

59 Hesse e comecei a escrever um longo conto

60 imitando-o: a viagem interior me fascinava. Eu

61 havia entrado em contato com a grande literatura.

62 Em outra vida que tive, aos 15 anos, com o

63 primeiro dinheiro ganho por trabalho meu, entrei

64 altiva porque tinha dinheiro, numa livraria, que me

65 pareceu o mundo onde eu gostaria de morar.

66 Folheei quase todos os livros dos balcões, lia

67 algumas linhas e passava para outro. E de repente,

68 um dos livros que abri continha frases tão

69 diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo.

70 Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu! E,

71 contendo um estremecimento de profunda

72 emoção, comprei-o. Só depois vim a saber que a

73 autora não era anônima, sendo, ao contrário,

74 considerada um dos melhores escritores de sua

75 época: Katherine Mansfield.


LISPECTOR, Clarice. O primeiro livro de cada uma das minhas

vidas. In: LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de

Janeiro: Rocco, 2020.

No trecho “Perguntaram-me uma vez qual fora o primeiro livro de minha vida.” (linhas 01-02), a colocação pronominal é


A

enclítica, pois a oração se classifica como reduzida de gerúndio.


B

enclítica, uma vez que a oração é iniciada por um verbo acrescido de pronome oblíquo.


C

mesoclítica, pois a oração é iniciada por verbo no futuro do pretérito do indicativo.


D

proclítica, pois a oração se classifica como reduzida de infinitivo.