Em meio ao lixo das chuvas no Rio Grande do Sul, catadores não conseguem trabalhar
Por Bruno Felin e Lara Ely
- Quando a água da enchente no Rio Grande do Sul baixar, o que restará além do sofrimento
- humano serão cerca de 47 milhões de toneladas de entulho. O número é semelhante ao de locais
- que passam por guerras, terremotos ou tsunamis.
- Ao mesmo tempo, um ponto contraditório dessa história é que justamente as pessoas
- mais essenciais para o trabalho de limpeza das cidades – os catadores foram duramente
- afetadas pelas enchentes. Moradores de regiões periféricas, áreas irregulares ou até mesmo
- ocupações são dependentes de políticas sociais e, por vezes, encontram na reciclagem ___ única
- forma de subsistência; ao todo, sete das 17 unidades de triagem que fazem a separação de
- resíduos em Porto Alegre foram alagadas. Além de os galpões terem sido invadidos pela água
- ou destelhados, a falta de luz deixa equipamentos inoperantes. As estradas bloqueadas impedem
- o transporte do material para clientes de logística reversa em estados vizinhos. A instabilidade
- do sistema da Secretaria da Fazenda (Sefaz) dificulta a emissão de notas fiscais, o que torna
- inviável o processo de compra e venda de sucata.
- Em Canoas
na região metropolitana, quatro cooperativas foram diretamente afetadas. - Grande parte dos cooperados e seus familiares está em abrigos ou isolada em suas casas: “Essa
- enchente deixou quem já estava ruim ainda pior, por conta da falta de reconhecimento,
- investimento e preços baixos dos recicláveis. ___ pessoas estão sem casa, sem trabalho, sem
- nada”, diz Michele Ferreira dos Santos, catadora e coordenadora da cooperativa Renascer. Entre
- a região metropolitana de Porto Alegre e o Vale dos Sinos, estima-se que 2,5 mil catadores de
- resíduos recicláveis perderam seu sustento com as cheias.
- Segundo o Movimento Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (MNCR),
- são 1,5 mil trabalhadores individuais que cumprem sua tarefa nas ruas, enquanto cerca de mil
- são cooperados, atuando nas unidades de reciclagem. “Todo mundo foi diretamente ou
- indiretamente afetado. Está tudo muito confuso e amarrado, são muitos fatores que impactam
- na nossa renda”, explica ___ reportagem a presidente do Fórum dos Catadores de Porto Alegre,
- Paula Medeiros, também coordenadora do Centro de Educação Ambiental Vila Pinto.
(Disponível em: apublica.org/2024/05/em-meio-ao-lixo-das-chuvas-no-rio-grande-do-sul-catadores-naoconseguem-trabalhar/ – texto adaptado especialmente para esta prova).