No creo em brujas, mas creo em energía
Por Claudia Tajes
- Depois de um dos verões mais escaldantes dos últimos anos, enfim é outono. Lembro
- sempre de uma matéria com estudantes senegaleses da UFRGS que, perguntados sobre as
- temperaturas senegalescas de Porto Alegre, acharam a comparação injusta. No Senegal não é
- tão quente, eles disseram.
- Pois a temperatura dos dias, agora mais curtos, segue alta, mas as noites ficaram mais
- amenas. A mudança de estação chegou trazendo um eclipse total do sol, que não foi visível por
- aqui, mas não importa. Quem conhece o assunto diz que um eclipse em Áries é capaz de liberar
- boas energias a distância mesmo. Uma das muitas matérias garantiu que “o eclipse solar
- acontecendo sob ___ regência do signo mais determinado e impulsivo do zodíaco traz bons
- fluídos para se avançar em direção aos próprios objetivos”. Pelo sim, pelo não, mentalizei tudo
- de melhor ___ 15h20min do Brasil, hora H do fenômeno.
- No creo em brujas, mas creo em energía.
- O outono costuma deixar as pessoas mais introspectivas, e faz sentido. Dias menos
- luminosos convidam a gente a ficar mais com a gente. O escritor português Gonçalo M. Tavares
- sugere, em um de seus textos, que se pense para dentro como um exercício, algo assim como
- fazer apoios ou abdominais. Nessa época em que tudo precisa ser anunciado nas redes, não
- deixa de ser um exercício com certa complexidade, pensar para dentro.
- Por exemplo: uma mulher de meia idade no outono, ela com ela mesma. Pensa que segue
- trabalhando como se tivesse 20 anos de idade, mas com 30 de experiência. Para o bem e para
- o mal, está muito distante do que se convencionou chamar de “repouso da guerreira”. Aliás, ela
- detesta ser chamada de guerreira. Tudo, menos guerreira.
- A mulher de meia idade diante do seu espelho imaginário pensa que, diferentemente das
- folhas, que caem no outono, seus músculos caem um pouquinho ___ cada estação. Vai
- aproveitar os meses frios para dar uma caprichada na parte física e encarar com mais
- tranquilidade os próximos verões. Nem existe mais o conceito “corpo de biquíni”, todos os
- corpos estão liberados para desfilar suas imperfeições sem ligar para os julgamentos
- alheios. Acontece que a mulher de meia idade é a sua juíza mais implacável e diz que vai para
- a academia para ficar bem com ela mesma, ponto.
- Embora siga todas as dicas 50+, nunca conseguiu ter a autoestima tão trabalhada quanto
- as influencers ensinam. A mulher de meia idade é real demais para isso e nada como a realidade
- para atrapalhar a autoestima. Por outro lado, foi a realidade que já tirou a mulher de meia idade
- de muita encrenca, sempre que por alguma razão ela quase entrou em fria.
- No outono que é do calendário, mas é muito mais dela, a mulher de meia idade pensa
- que, a essa altura do campeonato, está preparada para tudo. Uma pena o mundo não estar
- preparado para ela.
- Só não a chamem de guerreira.
(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/donna/colunistas/claudia-tajes/noticia/2024/04/no-creo-em-brujas-mas-creo-em-energia – texto adaptado especialmente para esta prova).