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Para responder às questões 01 a 10, leia o texto abaixo.
Dialogando com a dor
1 Não simpatizo nada com a ideia de sentir dor.
2 Para minha sorte, elas foram raras. Vivi dois partos
3 normais que pareceram um piquenique no campo,
4 nada doeu, sobrou relaxamento e prazer. Quando
5 penso em dor física, o que me vem à lembrança são
6 as idas ao dentista quando era criança. Começava a
7 sofrer já na noite anterior, sentia enjoas fortíssimos,
8 não conseguia dormir, passava a madrugada
9 chorando só de imaginar que no dia seguinte teria que
10 O enfrentar a broca e seu barulho aterrorizante. Estou
11 falando de uma época em que crianças tinham cárie -
12 hoje muitas nem sabem o que é isso, bendito flúor.
13 O que fazer em relação a esse tipo de dor? Se nos
14 pega de surpresa (um tombo, uma cabeçada, um
15 corte), suportar. Se for uma dor interna, tomar um
16 analgésico e esperar que passe. Não se pode dialogar
17 com a dor física. Músculos, nervos, órgãos, pele, essa
18 turma não escuta ninguém. Ainda bem que (com
19 exceção das dores crônicas) não são dores
20 constantes, e sim pontuais. De repente, somem.
21 Já a dor psíquica não é tão breve. Pode durar
22 semanas. Meses. Sem querer ser alarmista, pode
23 durar uma vida. Porém, ela é mais elegante que a dor
24 física: nos dá a chance de chamá-la para um duelo, ao
25 contrário da outra, que é um ataque covarde. A dor
26 psíquica possibilita um diálogo, e isso torna a luta
27 menos desigual. São dois pesos-pesados, sendo que
28 você é o favorito Escolha suas armas para vencê-la.
29 Armas? Por exemplo: redija cartas para si
30 mesmo. Escreva sobre o que você sente e depois
31 planeje seus próximos passos. Escrever exorciza,
32 invoca energia. Cartas para si mesmo estabelecem
33 uma relação íntima entre você e sua dor. Amanse-a.
34 Terapia. A cura pela fala. Você buscando explicar
35 em palavras como foi que permitiu que ela ganhasse
36 espaço para se instalar, de onde você imagina que ela
37 veio, quem a ajudou a se apoderar de você. Uma
38 investigação minuciosa sobre como ela se
39 desenvolveu e sobre a acolhida que recebeu: sim, nós
40 e nossas dores muitas vezes nos tornamos um só. É
41 difícil a gente se apartar do que nos dói, pois às vezes
42 é a única coisa que dá sentido à nossa vida.
43 Livros. O mais deslumbrante canal de comunica-
44 ção com a dor, pois através de histórias alheias
45 reescrevemos a nossa própria e suavizamos os efeitos
46 colaterais de estar vivo. Ler é o diálogo silencioso com
47 nossos fantasmas. A leitura subverte nossas certezas,
48 redimensiona nossos dramas, nos emociona, faz rir,
49 pensar, lembrar. Catarses intimidam a dor.
50 Meditação. Religião. Contato com a natureza.
51 Viagens. Amigos. Solidão. Você decide por qual
52 caminho irá dialogar com a sua dor, num
53 enfrentamento que, mesmo que você não saia
54 vitorioso, ao menos fortalecerá seu caráter.
55 Quem não dialoga com sua dor psíquica, não a
56 reconhece como a inimiga admirável que é, capaz de
57 torná-lo um ser humano mais forte. A reduz a uma
58 simples dor de dente e, como uma criança, desespera-
59 se sozinho no escuro.
Autora: Martha Medeiros.
Qual figura de linguagem pode ser identificada na frase Músculos, nervos, órgãos, pele, essa turma não escuta ninguém (l.17-18)?
Metáfora.
Eufemismo.
Hipérbole.
Personificação.