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O texto seguinte servirá de base para responder às questões de 1 a 19.
ESSA TERRA É DENTRO DA GENTE
Eu ainda não tinha me refeito do impacto da experiência anterior, de assistir à animação dos incontáveis pontos brilhantes, nuvens de vagalumes se movendo em todas as direções no mapa-múndi, enquanto a legenda se impunha à beleza da imagem no alerta de que, em 2020, foi superada a marca de 280 milhões de pessoas vivendo fora de seus países de origem, que a mudança ocorre por diversos motivos, melhorar de vida, fugir da fome, da guerra, das perseguições políticas, religiosas, étnicas, que, desse total, cerca de 25 milhões são refugiados.
E que diferente dos migrantes, cujo deslocamento ocorre por vontade própria, e o retorno, a qualquer momento, os refugiados são obrigados a partir e não podem voltar.
Quando retomei o fôlego, depois de me apertar no bote à deriva e de atravessar o deserto na multidão calada, depois de me arder nas mãos aquele arrancar de raízes, à espera do verde dos olhos de Rosinha se espalhar na plantação, veio a segunda mordida: "Eu não sei para onde estou indo e o lugar de onde eu venho está desaparecendo."
A leitura dos fragmentos revelava esse limbo pantanoso, círculo dantesco a que tantos são condenados. As palavras − denúncia, memória, identidade, poesia, acalanto, transgressão −, guias dos meus passos, eram luzes brilhantes rasgando a escuridão da noite artificial, o sol esquecido do lado de fora.
Adiante, a cronologia em uma linha, sons, uma floresta de vozes, aqui e ali, árvores conhecidas, outras, indecifráveis, exóticos vegetais.
Assim é chegar sem falar a língua, sem exercer a profissão que baliza a existência, sem a cor local, sem o modo de arrumar os cabelos, de dançar, de se vestir, de comer, de honrar os ancestrais, os meus também deixaram tudo e cruzaram o oceano, embarcados no navio da esperança em tempos melhores, trouxeram neles o seu chão, "Essa terra é dentro da gente", mais uma frase que se acende na testa da parede para nunca se apagar atrás dos meus olhos.
E mesmo muitas salas depois, muitos quilômetros distantes, muitos dias transcorridos, desde que saí pela porta do Museu da Língua Portuguesa, o tubarão me segue, a me devorar com sua boca pré-histórica, com os serrilhados de pontas agudas, das duas arcadas que se encontram, apertam, dilaceram a carne nos dentes, e sinto a dor alheia, porque é minha, nenhuma é exclusiva, a todos pertence. De onde a fera vem?
A fera nasce, cresce e nada na incapacidade de nos reconhecer no outro.
Marília Lovatel
https://mais.opovo.com.br/colunistas.
O verbo assistir no trecho "[...] de assistir à animação dos incontáveis pontos brilhantes [...]" é
intransitivo, logo sem a presença de complemento verbal.
transitivo direto, em que incontáveis pontos brilhantes é seu objeto direto.
transitivo indireto, em que à animação dos incontáveis pontos brilhantes é seu objeto indireto.
bitransitivo, em que à animação dos incontáveis é seu objeto indireto e pontos brilhantes seu objeto direto.